Hereditário: crítica ácida ao terror psicológico superestimado de Ari Aster

Hereditário: O Rei Está Nu e Todo Mundo Bateu Palma

Ari Aster estreia com uma obra que confunde lentidão com profundidade e afronta com ousadia. O resultado é exatamente o que é: um filme de entretenimento que se fantasiou de arte.

Por uma pessoa sem paciência para modas, 2 h 7 min de sofrimento documentado.

Existe um contrato tácito e covarde que vigora no cinema de horror contemporâneo: o de que basta você fazer seu filme devagar, colocar uma trilha dissonante e amarrar tudo numa metáfora sobre trauma familiar para que a crítica especializada caia de joelhos diante de você.

Ari Aster assinou esse contrato com sangue e Hereditário é o documento mais bem enquadrado desse acordo medíocre.

Deixemos de lado o eufemismo.

Hereditário é um filme competente, e aqui uso essa palavra como o insulto que ela merece ser quando aplicada a algo que se propõe excepcional.

A fotografia de Pawel Pogorzelski é capaz e funcional.

Toni Collette entrega uma atuação de fazer inveja, jogando o corpo inteiro numa personagem que o roteiro, em troca, trai sistematicamente.

É como contratar Caetano Veloso para cantar num comercial de margarina.

“Aster confunde estética de museu com profundidade emocional.

O que ele vende como angústia existencial não passa, na maior parte do tempo, de impaciência bem fotografada.”

O problema da pose

O grande pecado de Aster não é técnico, é filosófico.

O diretor acredita, com uma convicção desconcertante, que a duração é proporcional ao significado.

Cada cena se estende além do necessário não porque haja algo a dizer naquele silêncio, mas porque o silêncio, em si, já foi confundido com sofisticação.

Os personagens olham para paredes.

A câmera fica parada.

O espectador espera e nada chega, apenas a ilusão de que o vazio profundo é diferente do vazio simples.

A revelação do terceiro ato, que não revelarei por pura cortesia, já que o filme não me estende a mesma, funciona como confissão involuntária: depois de duas horas nos convencendo de que assistíamos a um estudo sério sobre luto e hereditariedade do trauma, Aster ergue a mão e admite que estava fazendo um filme de culto satânico com demônios de nariz cortado.

Não há nada de errado com isso, o problema é a desonestidade da pose.

“Toni Collette merecia um filme à altura do que ela entregou.

Recebeu, em vez disso, um exercício de estilo que a usa como combustível e depois a abandona no altar de uma revelação que mais parece piada interna entre roteiristas.”

A Cumplicidade da Crítica

Mas o verdadeiro escândalo não é o filme, é a recepção, Hereditário foi saudado como uma obra-prima geracional. “O terror voltou a ser respeitável”, bradavam os críticos de terno, como se terror já não fosse respeitável desde O Iluminado, A Hora do Pesadelo ou O Exorcista — filmes que, esses sim, nunca precisaram pedir permissão intelectual para assustar.

A crítica, assustada com a perspectiva de não ser considerada sofisticada o suficiente, capitulou. Applause, applause.

O que Hereditário capturou com brilhantismo não foi a psicologia do luto, foi o humor da crítica cinematográfica de 2018.

Um setor inteiro de formadores de opinião, traumatizado por anos de Jogos Mortais e sequências de Paranormal Activity, estava faminto por qualquer coisa que pudesse parecer digna de análise.

Aster jogou os iscos certos: miniatura artística como metáfora, Toni Collette gritando em francês, referências a ocultismo que soam como leitura de verdade, a crítica mordeu, engoliu e pediu mais.

Veredicto

Há um filme de terror genuinamente bom escondido nas primeiras duas horas de Hereditário, um sobre uma família destruída pelo segredo, pela doença mental não tratada e pela comunicação impossível entre gerações.

Esse filme existe em flashes brilhantes, especialmente quando Collette está em quadro, é sufocante, desconfortável e honesto, e então Aster lembra que precisa terminar a história, entra em pânico e convoca um demônio para resolver o problema.

Filmes não são corajosos por serem lentos, não são profundos por serem desconfortáveis e definitivamente não são obras-primas por fazerem a crítica sentir que precisa fingir que entendeu algo que talvez não haja nada a entender.

Uma atuação extraordinária em busca de um filme à sua altura.

Toni Collette entrega o máximo, o roteiro, o mínimo, a crítica especializada, a pior resenha de si mesma.

Hereditário

O argumento central da crítica é que Hereditário é um filme que se beneficia de um contexto cultural específico: uma crítica faminta por horror “sério” que acabou confundindo postura artística com substância real.

Toni Collette está genuinamente extraordinária, e há um terror psicológico poderoso nas primeiras duas horas, mas Aster trai tudo isso no terceiro ato ao recorrer ao sobrenatural mais convencional depois de prometer algo diferente.

A provocação mais ácida é sobre a cumplicidade da crítica: o filme não seria tão superestimado sem um ecossistema de formadores de opinião que precisavam, desesperadamente, de algo que parecesse respeitável após anos de sequências de slasher. Aster entendeu esse mercado e o explorou com maestria, o que, de certa forma, é o maior talento dele.

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