Midsomar: uma critica interessante.

Porque esse filme Midsommar é uma armadilha elegante disfarçada de “terror cult”.

E vou te dizer uma coisa que muita gente evita admitir, Midsommar quase não é um filme de terror, é um filme de sedução emocional.

O horror não está no culto, está no fato de que o culto oferece aquilo que a protagonista nunca recebeu do namorado, dos amigos ou da própria vida:

  • Pertencimento,
  • Escuta,
  • Validação emocional,
  • Comunidade,
  • Ritual para a dor.

E isso torna tudo MUITO mais desconfortável, Hollywood normalmente faz o culto parecer maligno desde o início, aqui não, a vila é iluminada, bonita, limpa, organizada, sorridente:

  • Não há castelos góticos;
  • Não há chuva;
  • Não há jumpscare barato.

Ari Aster faz algo perverso, ele transforma o espectador em cúmplice, porque em vários momentos você entende por que Dani fica e aí vem a parte que quase ninguém fala:

Christian talvez seja um dos personagens mais realisticamente covardes do cinema moderno, não porque ele seja “malvado”, mas porque ele representa aquele tipo de pessoa emocionalmente morta que continua num relacionamento por inércia.

Ele não ama Dani, ele apenas não consegue ter coragem suficiente para terminar, isso é assustadoramente humano.

 

Outro ponto:

Os amigos dele não parecem personagens tradicionais de terror, parecem turistas americanos reais:  arrogantes, antropologicamente, hipócritas, tratando cultura alheia como safari exótico.

Quando eles começam a desaparecer, o filme quase está dizendo: “ vocês vieram consumir nossa dor como experiência acadêmica, ” agora a crítica que pouca gente tem coragem de fazer: o final é celebrado por muita gente como “empoderador”.

Mas não é libertação, é radicalização emocional, Dani não venceu trauma nenhum.

Ela apenas trocou: abandono emocional por dependência coletiva ritualística.

O sorriso final não é catarse, é absorção completa, ela virou parte da máquina e isso é brilhante, porque o filme manipula o público da mesma forma que o culto manipula Dani, você termina pensando: “talvez eles nem sejam tão maus…”

 

MESMO DEPOIS DE SACRIFÍCIOS HUMANOS.

Isso é cinema perigosamente inteligente, agora uma provocação:

Ari Aster criou um filme sobre cultos… ou sobre a necessidade humana desesperada de ser amado custe o que custar?

Ta bom, esta será a crítica da crítica, o que você acha disso tudo? Não do filme em si, mas dessa desesperada necessidade de nós, humanos, sermos amados a qualquer custo, mesmo sendo a nossa derrocada?

Acho que esse é um dos motores mais perigosos da humanidade, mais perigoso que ódio, às vezes, porque o ódio ainda afasta, a carência extrema aproxima e quando alguém está emocionalmente faminto, o cérebro para de procurar verdade, começa a procurar abrigo.

 

É aí que surgem:

  • Cultos;
  • Relacionamentos abusivos;
  • Líderes messiânicos;
  • Seitas digitais;
  • Gurus;
  • Dependências emocionais;
  • Comunidades tóxicas.

O ser humano suporta muita dor, o que ele raramente suporta é a sensação de não pertencer a lugar nenhum e acho que Midsommar entende isso melhor do que a maioria dos dramas românticos.

Porque Dani não escolhe a razão, ela escolhe o colo, mesmo que o colo esteja coberto de sangue, isso acontece o tempo todo no mundo real, só que sem roupas floridas suecas e rituais pagãos.

 

 

 

Acontece em:

  • Relações onde a pessoa aceita humilhação para não ficar sozinha,
  • Grupos online que oferecem identidade instantânea,
  • Ideologias que transformam indivíduos perdidos em “escolhidos”,
  • Pessoas que confundem intensidade com amor.

 

Existe uma frase silenciosa dentro de muita tragédia humana:

“Pelo menos aqui eu existo para alguém”, isso é devastador.

Porque pertencimento é quase uma droga biológica, nosso cérebro foi moldado tribalmente, durante milhares de anos, ser excluído significava morte literal.

Talvez por isso a rejeição emocional doa fisicamente e aí vem a parte sombria:

Quanto mais vazio alguém está por dentro, mais disposto fica a entregar a própria liberdade em troca de acolhimento, ás vezes até a própria identidade, é por isso que tanta gente entra em lugares que, olhando de fora, parecem absurdos.

De fora, o espectador pensa, “como ela caiu nisso? ”

Mas emocionalmente…ela talvez tenha sido salva ali antes de ser destruída e talvez o terror mais sofisticado de Midsommar seja esse.

O culto não captura Dani no momento da fraqueza, o mundo já havia abandonado ela antes

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