Minha Jornada no Auto Posto Catarinense, Trabalho, Perigos e Resiliência.

Minha jornada

Eu, desde muito cedo, comecei a trabalhar depois que fiquei órfão de pai.

Mudei de cidade sozinho e dormia em um depósito de bebidas da lanchonete onde fui trabalhar, com ratazanas passeando à noite sobre mim.

Acordava assustado na escuridão, longe do interruptor que acendia a luz. Muitas vezes, não conseguia mais dormir.

Mas tudo passa. Coisas ruins sempre passam.

Os primeiros trabalhos

Trabalhei no campo colhendo algodão, em uma fábrica de cal, como balconista de lanchonete e também como entregador de pão.

Quando saí da padaria, estava ruim de trabalho, até mesmo para os menores.

Foi então que um amigo, que havia ido jogar futebol em um bairro da cidade vizinha de Itu, voltou com uma novidade: um posto de gasolina ali perto estava precisando de balconistas para a lanchonete.

Decidimos ir na segunda-feira para ver se conseguíamos o trabalho.

Deu certo.

Eu não voltei mais para casa.

Meu amigo voltou, pois começaria no dia seguinte, e trouxe as coisas de que eu precisava: coberta, roupas e itens de higiene pessoal.

Passamos a dormir em um quartinho ao lado do posto.

O Auto Posto Catarinense

Era um lugar muito movimentado.

Tinha um campo de futebol no fundo, uma empresa de artefatos de concreto, a CINASA, para a qual servíamos café da manhã aos trabalhadores, almoço para a administração e, nos fins de semana, almoço ou lanche para os que faziam horas extras.

Era uma loucura, literalmente.

Mais distante um pouco, havia uma empresa que criava coelhos para abate. Logo à frente, uma cerâmica e uma antiga estação de trem desativada.

No posto de gasolina havia borracharia, mecânica e eletricista.

Chamava-se Auto Posto Catarinense, do seu Júlio, o proprietário.

Acho que ainda está lá. Nunca mais passei por ali.

Bem em frente, do outro lado da pista, havia também um local de treinamento do Exército, onde faziam manobras de tiro e treinamento com tanques de guerra.

O meu shopping improvisado

Ali era o meu shopping.

Eu encontrava cápsulas deflagradas de fuzis, ou sei lá que tipo de arma, que passavam batido depois do treinamento, apesar do pente-fino feito pelos recrutas.

Com esses objetos, eu fazia chaveiros, oferecia aos amigos e vendia alguns na feira de artesanato em Sorocaba.

Certo dia, fiz uma tremenda bobagem.

Encontrei um artefato perigoso. Não sei exatamente de que tipo era. Parecia uma granada daquelas que eu via nos filmes de guerra no cinema.

Aquilo talvez não fosse letal, mas poderia machucar alguém.

Levei para o meu quartinho, onde guardava minhas coisas.

Um dia, resolvi, à revelia do patrão, colocá-lo no alto de uma prateleira.

O dia em que o Exército apareceu

No mesmo dia, passavam por ali romeiros com destino a Pirapora do Bom Jesus.

Eram ônibus e mais ônibus.

Depois da passagem desses romeiros, lá pelas onze horas, parou um carro e desceu um casal. Ele, sem dúvida, era alguém do Exército ou da Polícia Militar.

Eles entraram e pediram alguma coisa.

Nem deu tempo de servir.

O homem se apresentou como oficial, não lembro a patente, e, lívido de raiva, mandou evacuar o local.

Na sequência, um camburão do Exército encostou em frente à lanchonete.

Desceram dois homens, todos trajados, carregando uma caixa de lata ou ferro. Com todo cuidado, recolheram aquele dispositivo.

Ato contínuo, eu e o patrão fomos até o quartel dar explicações.

Se é que havia como explicar por que eu tinha entrado em um local proibido e tirado de lá um objeto perigoso.

Eu assumi o ocorrido.

Expliquei que tinha acabado de colocar o artefato ali, que antes ele estava em meu quarto e que eu havia pegado o objeto há uns dois dias no local de treinamento.

A sorte de ser conhecido

A minha sorte é que, entre todos aqueles oficiais, reconheci um oficial já idoso, avô de um amigo meu, que morava na mesma rua que minha mãe.

Ele me conhecia.

Sabia da minha índole e dos perrengues que eu já havia passado.

Então, confabularam por algum tempo e nos liberaram.

Mas com uma ressalva:

Se eu, ou qualquer pessoa dali, fosse pego no campo de treinamento, era cadeia.

O patrão ria de nervoso.

A vontade dele era me jogar na frente do primeiro caminhão que passasse, enquanto voltávamos de táxi para o posto de gasolina.

Como dizem por aí, e eu acredito piamente, ser bom, honesto e trabalhador é obrigação de cada indivíduo. Mas a sociedade elege isso como virtude.

Então resolveram me dar mais uma chance.

E eu aproveitei, sem dúvida.

Entre nomes, rostos e movimento constante

Eu sempre fui horrível para lembrar nomes, lugares e datas.

Lembrava dos acontecimentos, mas não dos nomes nem das datas.

Então eu conhecia pessoas, mas não lembrava seus nomes.

Era “Zé”, “Mané” ou “psiu”.

Quando queria chamar alguém, era assim:

“Ô, psiu, faz o favor.”

Eram tantas pessoas que a gente servia ali que era impossível guardar nomes ou feições.

Alguns passavam de vez em quando. Outros tinham aquele lugar como rota fixa.

Os assaltos na beira da estrada

Como era beira de rodovia, os assaltos eram constantes.

Geralmente aconteciam no posto, de forma rápida.

Outros eram mais elaborados, quando entravam no restaurante.

Lembro-me da primeira vez.

E, como dizem, a gente nunca esquece.

Estávamos quase fechando. Ou melhor, já fechados.

Fazíamos a limpeza, com as portas quase totalmente fechadas.

Nisso, um clarão entrou pela porta.

Desceu uma pessoa e perguntou se poderíamos servir alguma coisa, pois estavam com fome.

Todo solícito, fui e suspendi a porta.

O homem e mais três entraram.

Já pareciam conhecer o lugar, pois foram direto para o fundo.

O que falou comigo ficou no cantinho da parede, próximo ao balcão, e pediu uma cerveja e uma porção.

Coloquei a cerveja no balcão, os copos, e abaixei sob o balcão para pegar o presunto, pois era a única coisa disponível naquele momento para fazer uma porção.

Quando me levantei, o camarada estava com uma arma enorme na mão e anunciou o assalto.

Preso no freezer

Nisso, vieram os dois lá do fundo e disseram que estava tudo limpo.

Tinham prendido meu parceiro no banheiro, sozinho e sem ação.

Entraram, recolheram tudo o que puderam e jogaram de qualquer jeito no carro.

Depois, me levaram até o freezer onde eram guardadas as carnes servidas no restaurante.

Por sorte, ele estava vazio e desligado, pois na quinta-feira fazíamos a limpeza para a nova remessa de carnes que chegava na sexta-feira.

A tampa do freezer tinha uma trava e abria só por fora.

Eu ali dentro nem respirava.

Esperava tiros ou algo parecido.

Não sei quanto tempo fiquei preso ali.

Quando os ladrões foram embora, abaixaram a porta e apagaram as luzes.

O socorro

Meu amigo, preso no banheiro, começou a dar sinais pela janela.

Foi visto por um vigia da firma ao lado, que, naquela hora, fazia ronda pelas cercanias da empresa.

Treinado para intercorrências de qualquer tipo, ele veio verificar o que havia acontecido e deu a volta, alertando os outros na guarita central.

Algum tempo depois, chovia viatura em frente ao posto.

Nunca pegaram ninguém.

Logo ali do lado ficava a Rodovia Castelo Branco, com saídas para Itu, Sorocaba e para a mata da região.

A adrenalina depois do medo

Depois daquele dia, quando eu trabalhava à noite, a adrenalina era alta.

Qualquer movimento ou pessoa desconhecida era motivo de suspeita.

Ao longo da minha jornada naquela empresa, foram quase oito assaltos.

Digo “quase” porque houve algumas tentativas que não tiveram êxito, pois foram percebidas a tempo pelo frentista, que alertou a empresa ao lado.

Eram nossos seguranças, rsrs.

Seu Antônio, o chefe da segurança noturna, era um excelente amigo e profissional.

Acho que sou um cara de sorte, pois estava sempre onde as coisas aconteciam.

Rio agora, mas, na hora, nem agulha passava.

E você, qual é a sua jornada?

Toda trajetória é feita de momentos que nos testam: sustos na escuridão, escolhas arriscadas, segundas chances inesperadas e o alívio de perceber que o pior já passou.

Compartilhei aqui um pedaço da minha história, desde o suor no campo até os desafios na beira da estrada.

Agora, quero ouvir você:

  • Comente: alguma vez você já passou por uma situação que parecia um “teste de fogo” ou recebeu uma segunda chance inesperada?
  • Compartilhe: conhece alguém que também viveu a época das estradas entre Itu e Sorocaba? Envie este texto para essa pessoa.
  • Sua história: deixe seu relato nos comentários. Histórias reais nos conectam e nos lembram de que, não importa a dificuldade, tudo passa.

Vamos trocar experiências? Deixe seu comentário abaixo.

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