O bebê de Rosemary

Assumindo a poltrona de crítico e com um café preto ao lado para acompanhar o clima denso, vamos falar sobre essa obra-prima de 1968 que, para muitos, é o “paciente zero” do terror psicológico moderno.

O Bebê de Rosemary: a anatomia da paranoia

Dirigido por Roman Polanski e baseado no livro de Ira Levin, o filme é um estudo de caso sobre como o horror pode ser extraído do cotidiano, do ambiente doméstico e, mais cruelmente, da violação da confiança.

A trama sob a lupa

Acompanhamos Rosemary Woodhouse, interpretada por uma Mia Farrow brilhante e fragilizada, e seu marido Guy, vivido por John Cassavetes, um ator ambicioso, enquanto se mudam para o Bradford, um edifício em Nova York com um histórico, digamos, “peculiar”.

Após uma noite de sonhos perturbadores e uma gravidez que parece consumir sua saúde em vez de gerar vida, Rosemary começa a suspeitar que seus vizinhos idosos e excêntricos têm planos sinistros para seu filho.

Por que o filme é um “monstro” do cinema?

  • A câmera voyeurística: Polanski utiliza ângulos que nos fazem sentir como intrusos. Há cenas em que a câmera parece espiar por trás de portas entreabertas, aumentando a sensação de que Rosemary está sendo vigiada sem saída.
  • O horror do realismo: não há efeitos especiais mirabolantes. O medo vem do brilho excessivo nos olhos dos vizinhos, do gosto estranho de um mousse de chocolate e da burocracia médica que ignora a dor da mulher. É o horror da perda de autonomia.
  • O som do silêncio: a trilha sonora, com aquela canção de ninar cantarolada pela própria Mia Farrow, é doce e, ao mesmo tempo, profundamente lúgubre. Ela contrasta com o barulho abafado das conversas através das paredes do apartamento.

Minha mais sincera opinião

Sendo direto: O Bebê de Rosemary é perturbadoramente genial.

O que o torna tão bom, e que talvez o torne difícil de assistir para quem busca sustos fáceis, é que ele é um filme sobre gaslighting muito antes de esse termo se tornar popular.

A agonia não vem de um demônio com chifres, que aliás mal vemos, mas de ver uma mulher ser isolada, desacreditada e vendida pelo próprio marido em troca de sucesso profissional.

O grande trunfo: o filme te mantém na dúvida até o último segundo. Rosemary está ficando louca devido a uma gravidez difícil ou existe realmente um culto satânico no apartamento ao lado?

Quando a resposta finalmente vem, ela não traz alívio, apenas um choque de conformidade que é, possivelmente, um dos finais mais sombrios da história do cinema.

Veredito

É um filme essencial. Ele não envelheceu um dia sequer porque o medo de não ter controle sobre o próprio corpo e a dúvida sobre em quem podemos confiar são temas universais e atemporais.

É cinema de atmosfera pura.

Você concorda que o horror que nasce da traição de quem amamos é pior do que qualquer monstro sobrenatural?

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