Midsommar, O que faltou e que ninguém disse

“É uma terapia que você não pediu e que não vai funcionar. ”

Todo mundo já disse que Midsommar é sobre luto, que é sobre um relacionamento tóxico, que a luz branca sueca é o horror e que Dani é libertada no final.

Essas leituras estão certas e é exatamente por isso que elas são insuficientes.

O que ninguém está dizendo é o seguinte:

Midsommar é um filme sobre o desejo de ser absorvido, não de curar, de dissolver.

“Dani não encontra uma família substituta, ela encontra um coletivo que consome a identidade individual, e esse consumo, aterrorizantemente, parece alívio.”

O erro de chamar isso de cura

Ari Aster constrói Dani como alguém que foi emocionalmente abandonada muito antes de sua família morrer; o namorado Christian é apenas a versão mais recente de uma solidão que ela já habitava. Quando Hårga a acolhe, chora com ela, respira com ela, sente com ela, o espectador sente o mesmo alívio que Dani sente.

E aí está o horror real: nós queremos que ela fique.

O filme falhou, não tecnicamente, mas eticamente com seu próprio argumento, ao não mostrar o custo psicológico dessa absorção, Dani vira rainha de uma cerimônia de morte coletiva e sorri.

O sorriso foi interpretado como catarse, mas é um sorriso dissociativo, ela não voltou para si mesma, ela sumiu.

O que faltou e que ninguém disse

Midsommar deveria ter nos feito sentir mais desconforto com o acolhimento do que com os rituais de sangue, o sacrifício dos velhos, a violência explícita, isso é fácil de rejeitar.

O difícil é rejeitar uma comunidade que te vê, que chora junto, que diz que você pertence, Aster chegou perto dessa fronteira e recuou.

O filme que poderia ter sido: uma exploração de como o trauma severo nos torna vulneráveis a qualquer estrutura que ofereça coesão, seitas, ideologias, relacionamentos abusivos “calorosos”, Hårga é uma metáfora perfeita para esse mecanismo.

Mas o roteiro usa essa metáfora de forma decorativa, não cirúrgica.

O que o filme acerta com precisão clínica

  • A luz perpétua como metáfora da mente sem descanso, sem escuridão para processar.
  • O espelhamento emocional coletivo como forma de controle disfarçado de empatia.
  • A beleza estética do ritual como anestésico moral.
  • A solidão urbana moderna como pré-condição para o fanatismo comunitário.

A lacuna que ninguém quer nomear.

Midsommar foi muito bem recebido porque deu ao público algo raro: um horror que parece emocionalmente honesto, mas honestidade emocional sem rigor psicológico produz catarse falsa.

O espectador sai achando que entendeu algo sobre si mesmo, e o que ele entendeu, de fato, foi que a dor extrema torna qualquer saída sedutora, inclusive a que exige que você queime gente viva.

Isso deveria nos perturbar muito mais do que perturbou, mas existe outro aspecto do filme em que a maioria das pessoas acredita que Midsommar é um filme sobre uma mulher que cai nas garras de um culto/seita.

Porém, a verdadeira história de Midsommar é sobre algo que todo ser humano deseja desesperadamente: pertencer.

E é justamente aí que mora o horror. Sentido da vida: por que saber o porquê não é suficiente!

Midsommar: O Terror de Pertencer

Durante todo o filme, Dani não está procurando amor, ela não está procurando cura, ela não está procurando vingança contra Christian, ela está procurando uma tribo.

Desde o início, Dani é uma estrangeira na própria vida.

Sua família desaparece numa tragédia absurda, seu namorado permanece por obrigação, não por afeto, seus amigos a toleram como um peso inevitável, em nenhum momento do filme alguém realmente a acolhe.

Observe um detalhe curioso: Dani nunca invade a vida de ninguém, pelo contrário, ela está sempre pedindo desculpas por existir.

Pede desculpas por chorar, por sentir, por precisar dos outros, por ocupar espaço, essa é sua condição psicológica, o culto percebe isso imediatamente.

Enquanto os espectadores acreditam estar assistindo a uma lavagem cerebral, o que ocorre é algo muito mais sofisticado, eles não quebram a mente de Dani, eles oferecem aquilo que ela nunca teve, pertencimento.

E aqui surge a crítica mais cruel do filme, o culto não conquista Dani porque é maligno, conquista porque é eficiente, quando Dani chora, as mulheres choram junto; quando Dani grita, elas gritam junto; quando Dani sofre, elas sofrem junto.

É uma encenação grotesca da empatia humana, mas quantas vezes a sociedade moderna faz melhor? O filme nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável:

O culto é monstruoso ou apenas exagera necessidades humanas legítimas?

  • A Armadilha da Comunidade Perfeita;
  • A sociedade moderna vende individualismo;
  • O culto vende comunidade.

A sociedade diz:

  • Resolva seus problemas sozinho.

O culto diz:

  • Sua dor é nossa dor.

A sociedade ignora Dani, mas o culto a transforma em rainha.

E então percebemos algo aterrorizante: Dani não escolhe o culto, apesar dos sacrifícios.

Ela escolhe o culto por causa dos benefícios; essa diferença muda tudo.

Não estamos vendo uma vítima sendo capturada; estamos vendo alguém finalmente encontrar um lugar onde sua existência parece importar, isso torna o final assustador.

Porque nós entendemos sua decisão.Por que o ser humano sente medo? A origem sombria do terror na mente

O Sorriso Final

Muitos interpretam o sorriso final como libertação, outros dizem que é loucura, acredito que ambos estão errados; o sorriso final é alívio.

Pela primeira vez na vida, Dani não está sozinha, não importa que o preço seja monstruoso, não importa que pessoas tenham morrido, não importa que toda a comunidade seja construída sobre violência ritual.

“Ela pertence”.Racismo: Análise Psicológica em Get Out, O Horror Que Já Existe no Mundo Real

E essa é a crítica mais devastadora de Midsommar.

O ser humano pode suportar dor, pode suportar perdas, pode suportar humilhações, o que ele raramente suporta é o isolamento.

O filme sugere algo terrível: muitas pessoas aceitariam ideias absurdas, líderes perigosos e até a destruição de sua própria identidade se isso significasse nunca mais se sentirem sozinhas.

O Verdadeiro Monstro

No fim das contas, o vilão não é o culto, também não é Christian, nem mesmo a tragédia familiar, o verdadeiro monstro de Midsommar é a fome humana por pertencimento.

Uma fome tão profunda que pode transformar uma prisão em lar, e talvez seja por isso que o filme incomoda tanto.

Porque, no fundo, todos nós entendemos Dani.

E entender Dani é muito mais assustador do que temer o culto.

 

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