Horror existencial e os paradoxos mentais, quando sua mente é o labirinto e o Minotauro.

Em nossos mergulhos anteriores, vimos como as distorções psicológicas vestem a realidade com trapos de medo e como a filosofia sombria escancara as portas de um universo sem sentido.

Mas existe um território ainda mais traiçoeiro, aquele em que o horror não está nem no mundo nem nos pensamentos isolados, mas nas próprias engrenagens do pensamento, laços que se apertam quando tentamos desatá-los, perguntas que, quanto mais respondidas, mais nos aprisionam.

Falo do horror existencial, a angústia de simplesmente ser e dos paradoxos mentais que ele gera, armadilhas da consciência que transformam a busca por sentido em um pesadelo sem saída.

Prepare-se para olhar para dentro de um abismo que olha de volta e, pior, descobre que você é o abismo.

O que é horror existencial e os paradoxos mentais?

O horror de existir, diferente do medo concreto (uma faca, um monstro, a escuridão), o horror existencial nasce das condições fundamentais da existência humana, a liberdade forçada, a certeza da morte, o isolamento radical, a falta de sentido inerente.

É o sentimento que Kierkegaard chamou de angústia, o medo sem objeto definido, o pavor diante do nada, é a náusea de Jean-Paul Sartre, a percepção súbita de que as coisas são apenas coisas, de que você é apenas um vivente jogado no mundo, sem propósito e sem manual.

Quando esse horror se instala, não é o barulho na casa vazia que assusta, é a casa, é o vazio, é você mesmo.

Os paradoxos que a mente produz

Já os paradoxos mentais são becos sem saída do raciocínio, diante do horror existencial, a mente consciente tenta entender, resolver, fugir e acaba criando laços que se estrangulam sozinhos.

São situações em que pensar mais, só piora o problema, em que a solução se torna a causa, em que toda resposta gera uma nova pergunta muito mais perturbadora.

O paradoxo não é um erro lógico externo; é a estrutura da nossa própria consciência dobrando-se sobre si mesma até se romper, é como olhar num espelho que reflete outro espelho, a imagem se multiplica até sumir na escuridão.

  1. O paradoxo da liberdade condenada

Jean-Paul Sartre disse: “O homem está condenado a ser livre”, isso parece um presente, mas o horror aparece quando você percebe que não pode escolher, onde até não escolher é uma escolha.

Você é o autor absoluto da sua vida, mas não pediu para sê-lo, não há roteiro divino, natureza humana fixa ou valores cósmicos que o guiem, você precisa inventar seu próprio sentido e é responsável por cada ato, sem desculpas.

O paradoxo, a liberdade total se torna uma prisão, você é livre para construir uma vida autêntica, mas qualquer escolha é arbitrária e pode ser questionada até o desespero.

Por que ser médico e não palhaço? Por que viver e não morrer? A cada esquina, a vertigem da possibilidade infinita paralisa. Sartre chamava isso de má-fé quando fingimos que não somos livres, mas a lucidez total é angustiante demais para a maioria.

No horror, o filme O Nevoeiro (Frank Darabont, baseado em Stephen King) é uma brutal exploração desse paradoxo, os personagens estão presos (condição humana), eles precisam escolher constantemente, confiar no líder religioso fanático, sair no nevoeiro ou esperar, no final, uma escolha livre leva à libertação e ao pior dos pesadelos.

 

A angústia está em saber que, mesmo com as melhores intenções, você pode ser o arquiteto da própria tragédia.

  1. O laço da autoconsciência, em que a mente se devora

Tente definir quem você é, agora pergunte, quem é esse que está definindo?

Quanto mais você se observa, mais se torna um objeto para si mesmo, esse “eu” observador nunca pode ser completamente capturado pelo “eu” observado.

O pensamento corre atrás do próprio rabo infinitamente.

É o paradoxo da subjetividade, “Penso, logo existo” oferece uma certeza, mas também abre um vórtice, pois esse “eu” que pensa é uma testemunha sem rosto, um vazio que nenhum conteúdo mental preenche.

A sensação de despersonalização, “não pareço real”, “sou um estranho dentro de mim”,  tem aqui sua raiz metafísica.

O horror, no livro, O Homem Duplicado (José Saramago / Inimigo (título original: Enemy, 2013), dirigido por Denis Villeneuve, o protagonista encontra um sósia idêntico a ele.

A busca por entender quem é o original dissolve as bordas da identidade, isso não é apenas suspense, é um ataque direto à nossa ilusão de sermos únicos e coesos, o paradoxo mental: “Se existe outro eu, eu sou outro também, mas quem é esse que percebe os dois?”.

Na vida real, pessoas com ansiedade existencial às vezes caem no loop de se autoanalisar até a paralisia, se perguntam: “estou sendo autêntico?” É o jeito mais rápido de se sentir falso, a mente se dobra e se rompe.

  1. O paradoxo do sentido sem-sentido

Albert Camus, definiu o absurdo como o divórcio entre a necessidade humana de significação e o silêncio irracional do mundo, o horror existencial nasce desse confronto, queremos desesperadamente que a vida tenha um propósito, mas todas as evidências sugerem que somos carne fugaz num planeta esquecido.

O paradoxo mental surge quando tentamos “resolver” o absurdo, afirmar que “nada tem sentido”. Isso é, em si, uma afirmação com pretensão de sentido. O niilista radical pisa em falso: se nada importa, por que ele se importa em proclamar que nada importa? A mente não consegue sustentar um niilismo absoluto sem cair em contradição autorreferente.

Duplo vínculo existencial: “você deve encontrar um sentido para viver, mas não há sentido algum até você o encontrar.” Essa mensagem contraditória aprisiona num estado de angústia sem saída.

Quem a internaliza vive numa busca que já sabe que é fracassada e a cada tentativa frustrada, o desespero cresce.

No filme A Bruxa, o diretor (Robert Eggers) é mestre nisso, uma família puritana busca sinais divinos para entender suas desgraças. A menina Thomasin tenta ser boa, mas quanto mais tenta, mais coisas terríveis acontecem.

No fim, a “libertação” é abraçar exatamente o mal que temiam, então esse é o paradoxo,  o bem que buscavam era uma armadilha e o mal talvez fosse a única saída, não há resposta confortável, e esse é o ponto.

  1. Medo de viver, medo de morrer, o impasse paralisante.

O ser humano carrega uma contradição essencial, teme a morte como aniquilação, mas também teme a vida como compromisso, viver implica escolher, sofrer, perder, enfrentar o desconhecido.

Morrer é deixar de ser e diante disso, muitos se refugiam numa existência de morto-vivo, não se matam, mas também não vivem, apenas vegetam, evitando o sofrimento e com ele, a verdadeira experiência de estar vivo.

Kierkegaard descreveu o desespero como a “doença mortal”, não a morte física, mas a incapacidade de ser o seu eu autêntico. Esse paradoxo é que você pode estar morrendo sem nunca ter vivido, e essa morte em vida é uma forma de sofrimento constante.

Zumbis como metáfora existencial, O zumbi moderno do diretor (George Romero a The Last of Us) não assusta apenas pela violência, ele é o espelho de um medo pior e se já somos zumbis? Corpos que se movem por inércia, consumindo sem propósito, incapazes de verdadeira conexão ou significado.

O paradoxo mental: tenho medo de morrer, mas o que faço da vida? Evito viver? Logo, fujo da morte aproximando-me dela.

  1. O loop da solução que agrava o problema

Um dos paradoxos mentais mais cruéis ligados ao horror existencial é o que poderíamos chamar de retroalimentação ansiosa.

Diante da angústia do sem-sentido, a pessoa tenta controlar o que não pode ser controlado, o futuro, a morte, a opinião alheia, o acaso. Esse controle gera mais ansiedade, porque o mundo é incontrolável, então a pessoa redobra o controle… até quebrar.

No primeiro artigo, falamos da catastrofização como distorção psicológica.

Agora veja sua versão existencial, qualquer evento banal é lido como prova de que a vida é um caos hostil. A busca por certeza metafísica, “por que estou aqui?”, “qual o sentido do meu sofrimento?”, torna-se um poço sem fundo, quanto mais se cava, mais escuro fica.

O paradoxo da autenticidade, “preciso ser autêntico”, mas, assim que você se esforça demais para ser autêntico, você se torna artificial, a espontaneidade vigiada morre. É o que ocorre com artistas que, ao tentar repetir um sucesso inspirado, produzem obras mecânicas.

No horror existencial, você se vigia tanto que a vida some do campo de visão.

No horror: no conto “O Coração Delator” (Edgar Allan Poe) é uma representação pura, o narrador tenta provar sua sanidade e, ao fazê-lo, demonstra sua loucura. Quanto mais ele descreve seu cuidado meticuloso, mais o leitor percebe o descontrole, a mente que se autojustifica cava a própria cova.

Abraçando o paradoxo, o Minotauro é você

Não há saída simples para esses loops, a filosofia sombria já nos mostrou que o universo é indiferente, a psicologia nos alertou para as distorções e agora, os paradoxos mentais revelam que a ferramenta que usamos para fugir é a mesma que nos prende a consciência.

Mas talvez haja uma virada, Camus propôs que vivêssemos o absurdo sem fuga, mantendo os olhos abertos, aceitar que a pedra de Sísifo vai rolar de novo e ainda assim continuar, não porque faça sentido, mas porque é a única revolta possível, abraçar o paradoxo, não resolvê-lo.

No centro do labirinto existencial há um Minotauro, uma criatura híbrida, parte racional, parte instintiva, faminta e solitária, a grande revelação do horror é que esse Minotauro não é um invasor externo é você mesmo, sua mente, essa fábrica de paradoxos, é o labirinto e a fera.

Reconhecer isso é assustador? Sim, mas é também o primeiro passo para deixar de se ferir contra as paredes do próprio pensamento.

Da próxima vez que um medo existencial surgir, “minha vida não tem sentido”, “sou livre demais”, “ninguém me entende”, pergunte-se, “Estou tentando resolver um paradoxo que só existe porque continuo pensando nele?”, ás vezes, a única saída é parar de correr e sentar no chão do labirinto e aceitar, não há saída e isso pode ser estranhamente libertador.

E se o Minotauro se aproximar, talvez você descubra que ele apenas queria companhia.

O Assustadoramente continua a vasculhar os recantos da mente onde a luz não alcança. Se este artigo o fez pensar e tremer um pouco por dentro, compartilhe.

Há mais pessoas presas no labirinto do que imaginamos.

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