O ano era 1972.

Eu era um adolescente de doze anos, equilibrando-me entre dois mundos.

Durante a noite, estudava no Ginásio Industrial, na Avenida Eugênio Salerno, onde hoje pulsa o campus da Uniso.

Nas noites e madrugadas, enfrentava o trabalho árduo como entregador de pão na Padaria Santa Terezinha, ali na esquina da Joaquim Nunes com a General Carneiro.

Um domingo comum em Sorocaba

Era um domingo comum, por volta das dez da manhã.

Eu estava na garagem, lavando a Kombi de entregas para deixá-la brilhando para a segunda-feira.

O sol de Sorocaba começava a esquentar quando o destino resolveu pregar uma peça violenta.

Na minha mente, aquele foi o estopim do ensejo.

Ao jogar água no teto da Kombi, um spray involuntário atingiu um homem que estava com o carro estacionado na porta da garagem.

O homem à paisana

Era um policial à paisana.

Visivelmente embriagado, ele não aceitou minhas desculpas.

O que se seguiu foi um desfile de insultos e ofensas que fizeram meu sangue ferver.

Mas o mundo parou de vez quando ele sacou a arma.

Na verdade, esse momento eu não vi. Foi contado depois.

Quando ele me disse que ia bater na minha cara para eu aprender a ser homem, eu fui para cima dele.

Quando a lógica desaparece

Naquele momento, meu cérebro “fritou”.

A lógica desapareceu.

Eu não vi a arma.

Vi apenas a humilhação.

Instintivamente, agarrei a primeira “arma” que encontrei: um pedaço de pau de eucalipto, curto como um porrete, usado no forno da padaria.

Com o ódio no comando, fui para cima do homem que saía do carro.

O resgate e o colapso

A tragédia só não aconteceu porque o dono do posto em frente, um grande amigo da minha família, interveio.

Ele, que sempre foi meu conselheiro e amigo, tirou o pedaço de pau da minha mão e enfrentou o sujeito, que também era conhecido dele, até que ele fosse embora.

Mas o estrago na minha mente já estava feito.

O agressor partiu, mas o ódio ficou represado dentro de mim.

Eu não conseguia mais coordenar os pensamentos.

Estava desorientado, trêmulo, em um estado de choque que meu corpo não suportava.

Então, me levaram às pressas para o pronto-socorro do Hospital Regional.

A maca no corredor

Quando finalmente “voltei”, recobrando os sentidos, o cenário era desolador.

Eu estava jogado em uma maca no corredor do hospital, sentindo cada músculo do corpo como se tivesse sido moído.

Eu estava “troncho”, dolorido e sob a vigilância silenciosa de um colega de trabalho, que estava ali para garantir que eu não apagasse de vez.

A lição da minha assustadora-mente

Hoje, mais de 50 anos depois, ainda sinto o peso daquele pedaço de pau na mão e o frio daquela maca no corredor.

Aquele episódio me ensinou que o ser humano é capaz de atos heroicos e terríveis em frações de segundos.

Minha mente tentou me proteger da intimidação com uma agressividade desesperada.

E o preço foi o colapso físico total.

Naquele domingo de 1972, eu conheci os limites da minha própria sanidade.

O que ficou daquele lugar

A padaria não existe mais. Só restou o prédio abandonado.

O portão da garagem ainda está lá. Não é o mesmo, mas ainda está lá.

O posto do Zequinha também permanece, com certeza sob novo comando.

Às vezes, passo por ali e sinto saudade do meu tempo de “pica fumo”, apelido dado pelo meu patrão.

Muitos não davam importância para aquele moleque mirrado e magrelo.

Mas dentro dele havia uma força descomunal.

Sozinho no mundo, assessorado pela vida, minha professora, e moldado pelo mundo, que, com suas pancadas, foi moldando a ferro frio a pessoa que sou.

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