Segundo texto da série Folclore: resgate do medo.
No primeiro, contei do Boitatá que corria no pasto do seu Lauro; hoje a história é de uma casa — e dos meninos que insistiam em entrar nela, e eu preciso confessar uma coisa: eu era o garoto curioso que ia atrás das aventuras.
Se diziam que num lugar tinha assombração, lá íamos nós conferir, não por valentia — por uma curiosidade que dava medo e na minha cidade, o endereço mais famoso dessa fama tinha até nome: casa dos padres.
Porque lendas surgem assim; algumas ganham notoriedade nacional, outras são regionais, e esta, como toda lenda, nasceu do inexplicável, mas explicado da paróquia.
A casa, as parreiras e o bicho-da-seda
A casa dos padres era grande, antiga e vazia — a combinação exata que uma cidade pequena precisa para fabricar uma assombração.
Ao redor dela, na época, havia uma plantação, fileiras e mais fileiras de amoras “parreiras”, cujas folhas alimentavam os bichos-da-seda criados ali, sim: a nossa casa assombrada tinha criação de bicho-da-seda no quintal — um detalhe que hoje me parece saído de um conto, mas que naquele tempo era só a paisagem.
Para um bando de adolescentes ávidos de aventura, aquilo era um convite impresso em letras garrafais. A gente se declarava corajoso na calçada, atravessava as parreiras se sentindo explorador, chegava perto da casa com o peito estufado…
E éramos todos muito, muito corajosos.
Até o primeiro estalido.

O primeiro estalido
Ele vinha, sempre vinha, e não se sabe de onde aquele estalido seco, como algo caindo no assoalho de madeira, dentro da casa, num cômodo qualquer — ou seria no telhado? Ou na parede? Ninguém ficava para investigar. A coragem coletiva, construída durante todo o trajeto, evaporava em meio segundo, e o bando inteiro disparava pelas parreiras, aos berros e às gargalhadas.
Inclusive eu. Principalmente eu.
E aqui está o detalhe que me intriga até hoje: nunca vimos nada, em todas as expedições, em todas as casas vazias da minha infância e adolescência, jamais apareceu um vulto, uma sombra, uma figura.
O que havia era outra coisa — o vento assobiando nas frestas, o telhado rangendo, e principalmente as tábuas: depois de um dia ensolarado, o assoalho e o madeiramento inteiro estalavam, se reajustando, como se a casa se espreguiçasse.
E todo e qualquer barulho era, na nossa cabeça, exatamente o que diziam ter lá.
O que a casa estava fazendo (segundo a física)?
A explicação é quase decepcionante de tão simples.
Madeira é material vivo mesmo depois de cortada: dilata com o calor, contrai com o frio. Num dia de sol forte, telhas, caibros e tábuas esquentam e se expandem milimetricamente; no fim da tarde, quando a temperatura cai, tudo encolhe de volta — e cada encolhida é um estalo. Casas antigas, de madeira e telha, literalmente falam ao entardecer. Some a isso o vento encontrando frestas (que funcionam como apitos), portas mal ajustadas, forros habitados por bichos pequenos, e você tem uma orquestra completa tocando numa casa onde não há ninguém.
O horário nobre dos estalos — o fim da tarde, quando o sol vai embora — era exatamente o horário nobre das nossas expedições. A casa dos padres nunca precisou de fantasma. Ela tinha física.
O que a nossa cabeça estava fazendo (segundo a psicologia)?
Mas a física só explica o barulho. Não explica a corrida.
Porque um estalo de madeira, sozinho, é neutro — o mesmo som, na casa da sua avó, você nem registra. O que transformava o estalo da casa dos padres em passo de assombração era o que a gente carregava para dentro dela: a história. Nós não entrávamos numa casa vazia; entrávamos numa casa narrada. E a mente humana tem um funcionamento conhecido diante disso: a expectativa vira filtro. Quando se espera um fantasma, cada som ambíguo é resolvido pelo cérebro a favor do fantasma. Os psicólogos chamam isso de percepção guiada por expectativa; nós chamávamos de “tá ouvindo isso?!”.
O cérebro odeia som sem explicação. Se a única explicação disponível na memória é a lenda, é a lenda que ele carimba. Nós não ouvíamos a casa — ouvíamos a história, tocada pela casa.
E por que a gente ria?
Esse é o meu detalhe favorito de toda a memória: a corrida terminava em gargalhada. Corríamos apavorados pelas parreiras e, cinquenta metros depois, estávamos rindo — do susto, uns dos outros, de nós mesmos. E voltávamos na semana seguinte.
A ciência do medo tem um nome carinhoso para isso: medo recreativo — o susto vivido em segurança, de preferência em grupo. O corpo dispara o alarme completo (coração, adrenalina, pernas), mas uma parte de nós sabe que o perigo não é real; quando a corrida confirma que estamos inteiros, o sistema converte todo aquele arsenal químico em euforia. É o mesmo mecanismo que sustenta filmes de terror, montanhas-russas e casas de sustos mundo afora. Nós não tínhamos cinema; tínhamos a casa dos padres — e ela funcionava melhor, porque era de graça e era nossa.
O medo compartilhado une. Cada corrida daquelas era um ritual: entrávamos meninos separados e saíamos um bando com mais uma história para contar na calçada. A casa nos assustava e, ao nos assustar, nos dava exatamente o que a adolescência mais quer — aventura com final feliz garantido.

O shopping
A casa dos padres não existe mais. As parreiras também não, nem os bichos-da-seda. No lugar de tudo aquilo, hoje, há um shopping e um aglomerado comercial — luz fria, ar-condicionado, som ambiente. O terreno, que já foi o lugar mais assombrado da minha adolescência, agora é o lugar com menos mistério da cidade.
Às vezes penso nos estalos. Toda estrutura estala — o shopping também, de madrugada, quando o metal esfria e as lajes se acomodam. Mas não há mais ninguém lá para ouvir com a cabeça cheia de histórias. O prédio fala sozinho, para ninguém, sem lenda que traduza.
Nunca vi a assombração da casa dos padres. Mas nunca saí de lá de mãos vazias: saía sempre correndo, rindo e com uma história.
E cinquenta anos depois, percebo que ainda é assim que eu trabalho.
E você? Qual era a casa assombrada da sua cidade — e o que ela dizia quando você chegava perto? Conta nos comentários: as melhores memórias podem aparecer nos próximos resgates.
http://paralisia-do-sono-ou-a-pisadeira-a-ciencia-por-tras-do-terror-noturno
Boitatá: a lenda que a ciência explicou e o medo ignorou
Este texto aborda o medo como fenômeno cultural e psicológico. Se o medo ou a ansiedade têm pesado na sua vida, considere conversar com um profissional para aconselhá-lo.