Boitatá: a lenda que a ciência explicou e o medo ignorou

Boitatá: a lenda que a ciência explicou e o medo ignorou: este texto é o primeiro da série Folclore: resgate do medo, em que revisito as lendas que o Brasil conta há séculos e o que elas revelam sobre a máquina de medo que carregamos dentro de nós. A pisadeira abriu a série: https://assustadoramente.com.br/paralisia-do-sono-ou-a-pisadeira-a-ciencia-por-tras-do-terror-noturno/ 

Na cidadezinha onde cresci, Salto de Pirapora, era o pasto do seu Lauro, em plena 1966, no que já era o centro da cidade, três ou quatro quarteirões da minha casa, com o forno de cal ardendo bem na esquina.

Da janela do meu quarto, eu via o pasto; isso importa para esta história: o lugar onde o Boitatá corria ficava à vista da minha cama. Ah, e a televisão mais interessante ficava na calçada.

Eu estudava de manhã, mas as tardes e as noites nós pertencíamos às ruas e, nas noites claras de lua cheia, quando o luar deixava tudo prateado, as mulheres arrastavam suas cadeiras para a frente das casas.

Ali, entre uma fofoca e outra, corriam soltas as histórias: a Mula sem Cabeça, o Saci, o Lobisomem que dizem que era do sítio de fulano.

Nós, crianças, ouvíamos com uma atenção que nenhuma professora jamais conseguiu da gente e depois pagávamos o preço: a noite mal dormida, o lençol até o queixo, os sonhos povoados de cascos, assobios e fogo.

Porque, entre todas as histórias daquela calçada, havia uma que não ficava só na história: o Boitatá. A gente via, sim, a gente via e corria.

A bola de fogo no pasto

Era quase sempre de dia, voltando da escola, o caminho margeava um pasto e, de vez em quando, lá estava ela: uma bola de fogo correndo solta sobre o capim, rápida, viva, indo em alguma direção que nunca parecia aleatória.

O professor explicava com a paciência de quem já tinha explicado muitas vezes: um raio, ou alguma outra faísca, acendia o capim seco; o vento empurrava e rolava aquele tufo em chamas pelo pasto.

Um fenômeno da natureza, simples assim. Nós ouvíamos, entendíamos, concordávamos e corríamos do mesmo jeito.

Porque aquilo não era um tufo de capim, aquilo era o Boitatá, e alguma parte de nós sabia disso com uma certeza que nenhuma aula de ciências alcançava.

A lenda mais antiga do Brasil

O que eu não sabia, correndo daquele pasto com o coração na boca, é que eu participava de uma corrente com mais de quatro séculos e meio de idade.

O Boitatá é a lenda brasileira mais antiga que existe, registrada em papel em 1560. O padre José de Anchieta escreveu numa carta sobre o “baetatá” que, em tupi, mbai-tatá, significa “coisa de fogo”, um facho ardente que os indígenas temiam encontrar à noite e que, diziam, atacava e matava como fazem as onças.

De lá para cá, a coisa de fogo mudou de forma conforme a região: no Sul, virou a serpente que sobreviveu ao grande dilúvio escondida num buraco e devorou tantos olhos de animais mortos que ficou feita de pura luz, uma cobra de fogo que enxerga através dos olhos que comeu.

Em outras partes, é o fogo que persegue viajantes na estrada e em quase todas, é o guardião dos campos, o castigo de quem toca fogo no mato.

Uma criatura feita de olhos roubados, que pune quem a olha e protege aquilo que arde. Quatrocentos e sessenta anos depois de Anchieta, ela ainda corria no pasto da minha infância e nós ainda corríamos dela.

A ciencia e o folclore

O que a ciência diz

A explicação existe e é dupla.

Para o que nós víamos, o professor tinha razão: capim seco, uma faísca, vento, o fogo rolando pelo pasto é um fenômeno tão real quanto banal.

Para a lenda em si, os pesquisadores apontam um parente mais misterioso: o fogo-fátuo, a combustão espontânea de gases liberados pela decomposição de matéria orgânica em brejos, várzeas e cemitérios rasos.

Metano e outros gases entram em ignição e criam chamas azuladas, flutuantes, que dançam sobre o chão.

E aqui mora um detalhe cruel da física: quando alguém se aproxima ou se afasta, o deslocamento de ar move a chama.

Para quem observa, ela reage, ela segue, ela foge, ela se comporta como algo que escolhe, e essa eu também vi, não só o capim ardendo no pasto de dia — a outra, a azulada ás vezes, passando pela rua, do lado de dentro da cerca, a uma certa altura do chão, lá estava ela: uma bola de fogo azul, parada no ar como quem espera.

Não precisava de mais nada, as crianças corriam e eu corria junto, sem olhar para trás, sem esperar que aquilo escolhesse me seguir.

Hoje sei o nome: fosfina, metano, ignição espontânea, mas, naquela hora, o nome era outro, e todo mundo na rua sabia qual era.

Séculos de gente atravessando campos escuros, antes da luz elétrica, encontrando fogos que pareciam vivos, e eu fui uma dessas pessoas, só que de kichute e mochila escolar.

A lenda não nasceu da mentira, nasceu da observação.

Por que a explicação não nos salvou?

E então chegamos à parte que realmente me interessa, a pergunta que este blog existe para fazer: se o professor explicou, se nós entendemos, se a ciência estava certa… Por que corríamos?

A neurociência tem uma resposta, e ela é desconfortável: porque o medo não pede licença ao conhecimento.

O cérebro processa ameaças por dois caminhos: um é longo, passa pelo córtex, analisa, compara, conclui: “é capim pegando fogo, o vento está rolando, não há perigo”.

O outro é curto, antigo, e desemboca direto na amígdala, a central de alarme que herdamos de ancestrais, para quem hesitar diante de uma cobra custava a vida.

O caminho curto dispara antes de o longo terminar de pensar; quando a razão chega com o laudo técnico, as pernas já estão correndo.

E, no nosso caso, a amígdala não trabalhava sozinha; ela tinha sido treinada, noite após noite, na calçada iluminada pela lua. As vozes das mulheres tinham gravado em nós a associação: fogo que corre = Boitatá = perigo.

As histórias eram contadas no lugar mais seguro do mundo: a rua, a comunidade, a claridade.

E é exatamente assim que o medo narrativo se instala melhor: relaxados, encantados, de guarda baixa.

A roda de causos era o nosso cinema de terror, e nós éramos a plateia perfeita.

O professor falava com o nosso córtex; a calçada tinha falado com algo muito mais profundo.

A esfera de fogo na noite misteriosa.

O fogo era da natureza, o medo era nosso.

Hoje eu sei o nome de tudo: combustão, propagação, amígdala, condicionamento.

Sei que o Boitatá que eu via era capim ardendo, e que o Boitatá de Anchieta era provavelmente gás de brejo.

E sei também que saber não teria mudado nada.

Porque o Boitatá nunca morou no pasto; ele morava na calçada, nas conversas das mulheres, na lua cheia, na voz de quem contava, na atenção hipnotizada de um bando de crianças que depois não dormiria direito.

O fenômeno era da natureza; o medo era nosso, fabricado em comunidade, transmitido com carinho, herdado como se herda um sobrenome.

Talvez seja por isso que ele sobrevive há quase cinco séculos.

Hoje, eu ainda passo por aquela rua; o pasto do seu Lauro não existe mais, as casas tomaram conta, o forno de cal virou esquina comum, e onde o fogo corria agora tem muro, laje e antena.

A cidade cresceu por cima do território do Boitatá.

Mas eu sei o que sei; pois da janela da minha infância se via um pasto onde uma luz corria, e nenhuma explicação, nem a do professor, nem as minhas de agora, chegou primeiro que o medo.

Lendas não precisam ser verdade para serem reais; elas só precisam de uma calçada, uma lua cheia iluminando alguém disposto a contar e alguém para ouvir, e uma janela de onde uma criança possa ver o escuro.

O pasto se foi. A luz, eu ainda vejo.

Nem todo medo faz barulho.

Toda semana, um mergulho na psicologia do medo: lendas que não morrem, mentes que traem e o horror que mora no silêncio. Direto no seu e-mail.

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