O Mapa, o espelho da transição

Casa dos Espelhos, cap. 7

O mapa: o parque imperial estava cheio naquele sábado, mas Theo só prestava atenção numa coisa: a mão do avô, um pouco mais fria do que de costume, segurando a sua enquanto andavam.

Vô Otávio tinha um jeito de caminhar que parecia não ter pressa de chegar a lugar nenhum — mesmo quando estava indo a algum lugar específico. Theo, doze anos, tinha aprendido a andar naquele ritmo só de acompanhá-lo, embora por dentro sua perna quisesse correr, como sempre quis desde pequeno.

— Sabe o que eu mais gosto desse parque, garoto? — perguntou o avô, sem olhar para ele, os olhos fixos em algo distante, talvez em nada.

— A Casa dos Espelhos?

— Não. O fato de que ele nunca está no mesmo lugar duas vezes.

Theo riu, achando graça. — Vô, é um parque. Ele não anda.

— Ah, anda sim. Só que devagar demais para a gente notar.

Entraram na Casa dos Espelhos sem dizer mais nada por um tempo. Os primeiros corredores eram os de sempre — risos, caretas, o pescoço esticado, a barriga em bola. Theo corria de espelho a espelho, e o avô o seguia, sempre alguns passos atrás, observando mais o neto do que os reflexos.

Foi perto do oitavo corredor que Otávio parou de andar.

— Theo. Vem aqui.

Não havia espelho ali. Só uma parede comum, de tijolo aparente, como se aquele trecho da casa tivesse esquecido de terminar a decoração.

— Não tem nada aqui, vô.

— Eu sei.

O avô se agachou, com a dificuldade de quem tem os joelhos mais velhos que a vontade, e ficou na altura do neto.

— Vou te contar uma coisa, e quero que você guarde, mesmo que não entenda agora.

Theo assentiu, sério, porque o tom do avô tinha mudado — não estava mais brincando.

— Existe um X nessa vida. Um lugar, uma resposta, um motivo — não importa o nome que você dê. E todo mundo passa a vida procurando o mapa que leva até ele.

— Como mapa de tesouro?

— Quase. Só que o mapa não existe pronto. Ninguém vai te entregar ele desenhado, com uma cruzinha vermelha marcando onde cavar.

— Então, como eu acho?

Otávio sorriu, do jeito que só sorria quando ia dizer algo que valia a pena lembrar.

— Você não acha o mapa, Theo. Você vai fazendo ele, passo por passo, andando. E o curioso é que ele só aparece completo quando você já chegou ao fim — antes disso, é só rabisco, dúvida, caminho que parece errado.

— Isso não é meio injusto?

— É. Mas também é a única parte justa de tudo isso.

O menino não entendeu, e o avô percebeu, porque riu baixinho.

— Vou te dizer de outro jeito. Tem gente que passa a vida esperando a sorte abrir o caminho. Tem gente que passa a vida culpando o azar por ter fechado. As duas estão olhando para o lado errado.

— Para onde eu devo olhar?

— Pra frente. Sempre para frente. Porque a luta não pergunta se é seu dia de sorte antes de aparecer. Ela aparece, e ponto. O que muda não é o momento — é se você continua andando dentro dele.

Foi nesse instante que a parede de tijolo começou a mudar. Não como um espelho comum, que reflete na hora — era mais lento, como neblina se desfazendo, revelando uma superfície de vidro por trás.

E o vidro não mostrou nem Theo, nem Otávio.

Mostrou os dois. Juntos. Mas, em outro tempo — Theo adulto, trinta e poucos anos, caminhando sozinho por uma rua que o menino ainda não conhecia, numa cidade que ainda não tinha visitado, atravessando algo que parecia ser uma perda, um fim de alguma coisa importante.

E ao lado dele, mesmo sem estar ali, a sombra do avô, andando no mesmo ritmo, sem pressa de sempre.

— Isso é o futuro? — Theo perguntou, a voz pequena.

— Isso é um caminho possível. Um dos muitos que você vai fazer.

— Você vai estar lá?

Otávio não respondeu de imediato. Olhou para o vidro, depois para o neto, e por um segundo seus olhos pareceram mais brilhantes do que o normal — não de lágrima, mas de algo que Theo, com doze anos, não tinha nome para descrever ainda.

— Vou estar onde sempre estive. Só talvez você não me veja mais do mesmo jeito.

O vidro escureceu antes que Theo pudesse perguntar o que aquilo queria dizer.

Otávio se levantou, com a mesma dificuldade de antes, e estendeu a mão para o neto.

— Vem. Sua mãe deve estar esperando.

Caminharam para fora da Casa dos Espelhos em silêncio, o sol da tarde batendo de um jeito diferente do que batia na entrada — ou talvez fosse só a hora, talvez fosse só o tempo passando, como sempre passa, devagar demais para alguém notar.

Theo só entenderia, anos depois, sentado sozinho numa rua desconhecida, exatamente como o vidro havia mostrado, que aquele tinha sido o último sábado.

Não porque o avô tivesse dito.

Não porque algo tivesse acontecido logo depois.

Mas, olhando para trás, ele percebeu que cada palavra daquela tarde tinha sido escolhida com o cuidado de quem sabe que não vai ter outra chance de dizer.

E ali, sozinho, na rua que o vidro já tinha mostrado antes de existir, Theo entendeu, finalmente, o que era o mapa.

Não era uma resposta.

Era a teimosia de continuar andando mesmo sem saber se aquele era um dia de sorte ou de azar.

Porque a luta nunca perguntou.

E ele, agora, também tinha aprendido a não perguntar.

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