Casa dos Espelhos, cap. 4
Algumas atrações do Parque Imperial eram difíceis de encontrar. Outras eram difíceis de suportar. O Espelho da Culpa pertencia à segunda categoria.
Ninguém anunciava sua existência. Nenhuma placa apontava o caminho. Nenhum funcionário mencionava o corredor. Mesmo assim, algumas pessoas acabavam chegando até ele — como se o próprio parque soubesse, como se escolhesse seus visitantes.
Naquela noite, escolheu Ricardo.
Sessenta e dois anos. Médico. Trinta e seis anos de profissão. Milhares de pacientes. Centenas de vidas salvas. Dezenas perdidas.
Era curioso como a memória funcionava. Ricardo mal lembrava o nome da maioria dos pacientes que ajudara. Mas lembrava perfeitamente daqueles que não conseguiu salvar. Todos. Sem exceção.
Entrou na Casa dos Espelhos sem saber por quê. Talvez pelo mesmo motivo que visitava cemitérios antigos. Talvez pelo mesmo motivo que algumas dores insistem em permanecer.
No final de um corredor estreito, encontrou uma porta. Preta. Sem decoração. Sem brilho. Apenas uma frase gravada na madeira:
Entre apenas se estiver disposto a perdoar.
Ricardo quase foi embora. Mas entrou.
A sala era circular. Vazia. No centro havia apenas um espelho — nenhuma moldura, nenhum ornamento, nenhuma beleza.
O reflexo surgiu imediatamente. E não mostrou Ricardo.
Mostrou uma menina. Nove anos. Leucemia. Ano de 1994.
Ricardo sentiu as pernas enfraquecerem. Lembrava dela. Lembrava-se do pai, da mãe, do quarto do hospital, da madrugada em que tudo terminou.
— Não… — sussurrou.
A imagem desapareceu. Outra surgiu. Um motociclista. Depois, uma senhora. Depois, um rapaz de vinte anos. Depois, outro. E outro. E outro. A sala começou a encher-se de rostos — décadas de pacientes, todos aqueles que ele não conseguiu salvar.
Ricardo fechou os olhos. Mas continuou vendo. Porque o espelho não refletia imagens. Refletia lembranças.
— Eu fiz tudo o que podia.
A frase saiu automática. Ensaiada. Repetida durante anos. Mas nem ele acreditava mais nela.
O primeiro rosto aproximou-se do vidro — a menina, a mesma de 1994. Ricardo esperou a acusação. Esperou ouvir que falhou, que demorou, que deveria ter percebido antes, que deveria ter tentado mais.
Mas ela apenas sorriu. Depois desapareceu.
Outro paciente surgiu. E também não acusou. Outro. Outro. Outro. Nenhum deles parecia zangado. Nenhum parecia decepcionado. Nenhum parecia culpá-lo.
Ricardo começou a sentir algo estranho. Confusão. Porque, se eles não o acusavam… quem acusava?
O espelho escureceu. Pela primeira vez, mostrou Ricardo. Somente Ricardo. O homem envelhecido, os olhos cansados, as olheiras acumuladas por décadas.
Então ouviu uma voz. A própria voz.
— Você deveria ter feito mais.
Outra. Também sua.
— Você falhou.
Outra.
— Não foi suficiente.
Outra.
— Se fosse melhor, eles estariam vivos.
Ricardo recuou. Finalmente compreendeu. Durante todos aqueles anos, acreditara carregar os mortos. Mas não carregava. Carregava o julgamento. O próprio julgamento. Os pacientes tinham partido. Quem permanecerá condenado fora ele.
O espelho revelou uma última frase, gravada lentamente sobre o vidro:
Você se responsabilizou por aquilo que nunca controlou.
Ricardo sentiu as lágrimas chegarem. Não pelas mortes — já havia chorado por elas. Mas porque percebeu algo que nunca permitira a si mesmo admitir: nem toda perda é fracasso. Nem toda morte é culpa. Nem toda batalha foi feita para ser vencida. Algumas foram feitas para serem lutadas. E ele lutará. Todas. Sem exceção.
Pela primeira vez em trinta e seis anos, Ricardo olhou para si mesmo sem acusação. Apenas com tristeza. E, estranhamente, aquilo parecia muito mais próximo da paz.
Quando saiu da sala, o espelho permaneceu vazio.
Porque a culpa tem uma característica curiosa.
Ela desaparece no instante em que deixa de precisar de um réu.
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