Casa dos Espelhos, cap. 3
O Parque Imperial estava vazio quando Helena encontrou o corredor.
Não a Casa dos Espelhos — essa ela já conhecia, já tinha visitado antes, sem nunca entender bem por que voltava. O corredor era outra coisa. Porque existiam partes da casa que não apareciam para todos os visitantes. Alguns encontravam o Espelho dos Arrependimentos. Outros, o Espelho da Culpa. Outros sequer percebiam que havia algo além dos corredores comuns.
Mas, naquela noite, a Casa dos Espelhos parecia esperar por Helena.
Professora há mais de trinta anos. Mãe. Filha. Viúva. Colega. Amiga. E, ultimamente, uma mulher cansada — não do trabalho, nem da idade. Cansada da sensação de não saber mais quem era.
Tudo começou quando uma antiga aluna a encontrou na rua. A jovem abriu um sorriso enorme.
— Professora Helena! A senhora mudou a minha vida.
Conversaram alguns minutos. A menina — agora mulher — falou sobre faculdade, trabalho, sonhos realizados. Falou sobre como Helena havia sido importante. Quando a conversa terminou, Helena ficou feliz. Mas também confusa, porque aquela mulher descrevia uma professora inspiradora, uma referência, uma mulher forte — e Helena não se reconhecia naquela descrição.
Dias depois encontrou uma antiga colega. A conversa foi menos agradável. Ao se despedirem, ouviu um comentário que julgava ter ficado fora de alcance:
— Sempre foi arrogante.
A frase ficou ecoando por dias. Arrogante. Inspiradora. Como as duas coisas podiam coexistir?
Na semana seguinte, sua filha a chamou de superprotetora. Uma amiga a chamou de generosa. Um vizinho a descreveu como reservada. Um ex-aluno a considerava brilhante. Outro, injusto.
Helena começou a perceber algo perturbador: cada pessoa parecia conhecer uma mulher diferente. E todas juravam estar falando dela.
Foi assim que encontrou o corredor — uma passagem estreita escondida atrás de um espelho comum. Na entrada havia uma placa simples:
O CORREDOR DOS ROSTOS
Helena entrou.
O primeiro espelho iluminou-se imediatamente, numa moldura dourada e elegante. No reflexo apareceu sua filha. Não, Helena — sua filha, observando-a. O vidro não mostrava o rosto de Helena. Mostrava a versão de Helena que vivia dentro dos olhos da filha: uma mulher forte, protetora, às vezes sufocante, às vezes necessária. Uma muralha.
Helena deu um passo para trás.
O segundo espelho despertou. Sua mãe apareceu, e então surgiu outra Helena — a menina que continuava existindo mesmo depois de sessenta anos. Insegura. Teimosa. Carente de aprovação. Helena sentiu um aperto no peito. Aquela mulher ainda estava ali. Escondida. Respirando.
O terceiro espelho revelou seus alunos, centenas deles, ao mesmo tempo. Alguns a viam como uma heroína. Outros, como uma exigência constante. Outros, como a professora que acreditou neles quando ninguém mais acreditava. Outros, como a responsável por notas baixas e broncas inesquecíveis. Nenhuma imagem era igual à outra.
O corredor parecia não ter fim. Cada espelho continha uma Helena diferente — amiga, inimiga, confidente, estranha, colega, vizinha, viúva, professora, mãe, filha.
Em determinado momento, ela começou a correr. Precisava encontrar o último espelho. Precisava descobrir qual deles era o verdadeiro. Qual deles era ela.
Quando finalmente chegou ao final do corredor, encontrou uma moldura vazia. Sem reflexo. Sem imagem. Sem rosto. Apenas uma frase gravada no vidro:
Qual delas você procura?
Helena aproximou-se. Tocou a superfície. E respondeu quase sem perceber:
— A verdadeira.
A frase gravada mudou, lentamente, como tinta surgindo sob a água:
Não existe uma única.
O corredor inteiro iluminou-se. Milhares de reflexos surgiram simultaneamente. Todas as Helenas. Todas verdadeiras. Todas incompletas.
Foi então que ela compreendeu. Passará a vida inteira tentando descobrir quem era, como se existisse uma resposta definitiva. Mas identidade não era uma fotografia. Era um mosaico — uma construção feita de encontros. Cada pessoa carregava um fragmento dela. E ela carregava fragmentos de todos.
O último espelho finalmente revelou seu reflexo, pela primeira vez naquela noite. Helena olhou para a mulher diante dela. E não viu uma resposta.
Viu uma pergunta.
Mas, pela primeira vez, isso não a assustou.
Porque algumas pessoas passam a vida tentando encontrar um rosto.
E outras descobrem que são um corredor inteiro.