Casa dos Espelhos, cap. 6
O Parque Imperial não costumava receber visitantes depois da meia-noite. Mas algumas atrações pareciam existir justamente para quem chegava tarde demais. Ou cedo demais. Beatriz nunca soube qual dos dois casos era o dela.
Tinha quarenta e oito anos. Uma vida estável. Um emprego estável. Uma rotina estável. E uma infelicidade tão bem organizada que quase passava despercebida.
Era boa em explicar as coisas. Principalmente para si mesma. Por que não mudava de emprego? Por que não escrevia o livro que sonhava escrever? Porque nunca viajava? Porque permanecia em relacionamentos que já haviam acabado muito antes do término?
Sempre havia uma razão. Sempre havia uma justificativa. Sempre havia uma história.
Foi assim que encontrou o corredor, escondido atrás de uma porta sem identificação. No alto dela, apenas uma placa:
O ESPELHO DAS MENTIRAS
Beatriz riu.
— Finalmente uma atração para políticos.
E entrou.
A sala estava vazia. Nenhum objeto. Nenhuma decoração. Apenas um espelho enorme ocupando toda a parede. Ela aproximou-se, esperando encontrar o próprio reflexo. Mas o vidro mostrou outra coisa. Uma frase. Apenas uma frase.
Eu não tenho tempo.
Beatriz franziu a testa.
— Claro que não tenho.
O espelho escureceu. Então mostrou centenas de horas — horas gastas rolando telas, horas assistindo a programas que nem lembrava, horas desperdiçadas em preocupações repetidas, horas esperando o momento perfeito, horas reclamando da falta de tempo.
A frase desapareceu. Outra surgiu.
Ainda não estou pronta.
O espelho revelou oportunidades. Convites recusados. Projetos abandonados. Sonhos adiados. Anos inteiros esperando uma versão futura de si mesma que nunca chegava.
Beatriz sentiu um desconforto crescente.
— Isso não é justo.
Mas o espelho não discutia. Apenas mostrava.
Outra frase apareceu.
As pessoas sempre me decepcionam.
O vidro revelou algo diferente. Não pessoas indo embora. Mas ela mesma construindo muros. Desconfiando antes de conhecer. Afastando-se antes de se machucar. Partindo antes que alguém pudesse partir.
O espelho parecia ter uma crueldade cirúrgica. Não atacava. Não julgava. Apenas removia os disfarces, uma frase após a outra, uma história após a outra — até que Beatriz começou a reconhecer um padrão. Nenhuma daquelas mentiras era exatamente falsa. Mas nenhuma era completamente verdadeira. Eram histórias. Versões editadas da realidade. Narrativas construídas para proteger algo. Medo. Vergonha. Dor. Fracasso. Solidão.
O espelho continuou.
Já é tarde demais.
Mostrou pessoas recomeçando aos cinquenta. Aos sessenta. Aos setenta. Mostrou portas abertas. Mostrou possibilidades. Mostrou que o problema nunca fora o tempo. Era o medo.
Eu não sou boa o bastante.
Mostrou elogios ignorados. Conquistas diminuídas. Capacidades escondidas. Oportunidades recusadas antes mesmo da tentativa.
Beatriz começou a chorar. Porque finalmente compreendeu: não estava olhando para mentiras. Estava olhando para armaduras. Cada frase tinha sido construída para protegê-la de alguma dor. Mas armaduras têm um defeito. Depois de um tempo, deixam de proteger. Passam a aprisionar.
A última imagem surgiu, diferente das outras. Não havia frases. Não havia cenas. Apenas uma porta. Fechada. Do outro lado dela vinha uma luz suave. Abaixo, uma pergunta:
Quem você seria sem as histórias que conta para si mesma?
Beatriz permaneceu imóvel. Não tinha resposta. Talvez ninguém tivesse.
O espelho escureceu lentamente. Então revelou sua última mensagem, gravada em letras pequenas. Quase gentis:
As mentiras mais difíceis de enxergar não são aquelas contadas aos outros.
São aquelas que contamos para nos manter exatamente onde estamos.
Quando deixou a sala, Beatriz sentiu medo. Mas era um medo diferente. Não o medo de mudar.
O medo de continuar igual.
E, pela primeira vez em muitos anos, isso pareceu suficiente para começar.
https://assustadoramente.com.br/custodia-do-ser/
https://assustadoramente.com.br/o-espelho-dos-arrependimentos/
https://assustadoramente.com.br/o-corredor-dos-rostos/
https://assustadoramente.com.br/o-que-os-espelhos-dizem-sem-palavras/
https://assustadoramente.com.br/o-espelho-da-culpa/