Casa dos Espelhos — Prólogo
Há quem acredite que os espelhos servem para mostrar a verdade. Não servem. A verdade é uma criatura complexa demais para caber numa superfície de vidro. Os espelhos mostram apenas reflexos — são os olhos humanos que insistem em preenchê-los com significados. Talvez por isso algumas pessoas passem a vida inteira diante deles sem jamais se enxergarem. Falsas Memórias: Quando o Cérebro Mente Para Si Mesmo
O Parque Imperial surgiu numa época em que as cidades ainda possuíam mistérios. Quando as luzes da noite não conseguiam expulsar completamente a escuridão, e quando os adultos ainda conservavam, escondido sob as responsabilidades, um medo infantil de certas portas fechadas.
Ninguém sabe ao certo quem construiu o parque. Os documentos mais antigos apontam proprietários diferentes a cada década. Os mapas mudam. Os registros desaparecem. Funcionários vêm e vão. Gerentes envelhecem. Donos morrem. O Parque Imperial permanece — como se não pertencesse a ninguém, ou como se fosse ele próprio o proprietário de tudo.
Os visitantes chegam pelas razões mais comuns possíveis. Uma família procurando diversão. Um casal procurando distração. Uma criança correndo atrás de algodão-doce. Um homem tentando esquecer. Uma mulher tentando lembrar.
Todos entram pelo mesmo portão. Poucos saem exatamente os mesmos.
Existe uma atração em particular sobre a qual quase não há registros oficiais. Nenhum folheto a menciona. Nenhum mapa a destaca. Nenhuma placa indica seu caminho. Ainda assim, quem precisa encontrá-la sempre encontra.
A Casa dos Espelhos.
Por fora, parece antiga — mais antiga que o restante do parque. As tábuas rangem mesmo quando não há vento. As lâmpadas piscam sem defeito aparente. A tinta descasca em camadas tão antigas que suas cores já não pertencem a década alguma.
Por dentro, entretanto, a idade não existe. Os corredores mudam. As portas aparecem onde antes não havia nada. Espelhos surgem. Espelhos desaparecem. E há ocasiões em que dois visitantes entram juntos e juram, mais tarde, ter atravessado construções completamente diferentes.
A explicação mais simples seria chamá-la de assombrada. Mas assombrações costumam habitar o passado. A Casa dos Espelhos abriga outra coisa.
Ela abriga aquilo que as pessoas evitam olhar.
Por que o ser humano sente medo? A origem sombria do terror na mente
Os espelhos comuns deformam o corpo. Alongam pernas. Encurtam pescoços. Transformam rostos em caricaturas. Os espelhos daquela casa fazem algo diferente. Eles deformam certezas. Revelam ausências. Exibem versões esquecidas. Mostram culpas que ainda respiram, arrependimentos que envelheceram no escuro, medos que aprenderam a usar o próprio rosto.
E, ocasionalmente, quando encontram alguém disposto a suportar a visão, revelam algo ainda mais raro.
A verdade.
Não há a verdade sobre o mundo. A verdade sobre quem está olhando.
Alguns visitantes saem rindo. Outros saem chorando. Há quem saia furioso. Há quem nunca mais volte. E existem aqueles que compreendem, tarde demais, que o reflexo mais perigoso não é o que mostra monstros.
É o que mostra a pessoa que fomos abandonando ao longo da vida.
Esta é uma coleção dessas histórias — histórias de homens e mulheres que atravessaram corredores onde o vidro não refletia rostos. Refletia escolhas. Cada espelho guardava uma pergunta. Nenhum deles oferecia respostas, porque os espelhos não falam. Nunca falaram.
Mas quem permanece diante deles por tempo suficiente acaba descobrindo uma coisa inquietante:
O silêncio também tem voz.
E ela costuma saber exatamente quem somos.
O primeiro espelho já está esperando: Custódia do Ser