O verdadeiro fantasma da praça, não era a Loira do Banheiro.

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Sexto texto da série Folclore: resgate do medo. Este é diferente de todos os anteriores. Não fala de um monstro que a ciência explica, nem de uma lenda que sobreviveu ao tempo. Fala de uma pessoa. Uma pessoa de verdade, que existiu, e que ninguém — nem eu — se deu ao trabalho de conhecer.

Na praça central da minha cidade, quando eu era menino, havia um banheiro público que eu não entrava nem de dia.

Era um prédio de formato estranho, meio oblongo, com os sanitários nas duas pontas e um vão aberto no meio — grandes entradas sem porta, um oco que o vento atravessava assobiando e onde qualquer som virava eco. De dia, a praça era das famílias: bem frequentada, com coqueiros, árvores, e um arbusto de flores azuis que florescia quase o ano inteiro, cobrindo uma parede junto ao ponto de táxi. À noite, dizia-se, a praça era outra coisa — e o banheiro, pior ainda.

As histórias corriam como rastilho de pólvora. A mais famosa era a da Loira do Banheiro.

A loira que a cidade inventou.

Todo brasileiro conhece a Loira do Banheiro — a lenda escolar da mulher que aparece no espelho, invocada por quem ousa chamá-la. Mas a versão da minha cidade era diferente, e a diferença dizia tudo sobre o lugar.

A nossa loira não assombrava a escola. Assombrava aquele banheiro de praça, à beira da avenida, ao lado do ponto final de ônibus. Contavam que, de madrugada, quem passava por ali — muitos voltando meio embriagados da feira que funcionava perto, esperando o último ônibus da meia-noite e quarenta — via uma mulher loira, bonita, atenciosa. E só depois percebia que ela não era deste mundo.

Repare no fantasma que a cidade escolheu. Não uma vingadora, não um monstro desfigurado: uma mulher bonita e gentil, que “fazia serão de madrugada” — uma imagem que se misturava, nas entrelinhas que ninguém dizia em voz alta, ao movimento noturno daquele ponto, às mulheres que ali faziam a vida, aos olhares das casas de família ao redor que condenavam de dia o que espiavam de noite. A loira era o retrato que a cidade fazia de si mesma sem admitir: o desejo, o julgamento, o escuro que a avenida iluminava só pela metade.

Eu tinha medo dela, claro. Toda criança tinha.

Mas hoje eu sei que a Loira nunca esteve naquele banheiro. Ela era feita de fofoca e de sombra. O único ser que de fato assombrava aquele lugar — o único de carne e osso — era outro. E dele quase ninguém falava.

A praça da cidade

O homem de macacão cinza

Havia um homem que cuidava daquele banheiro.

Ele usava um macacão escuro, cinza ou preto, desbotado pelo tempo e pelo uso. Tinha uma deficiência congênita — arrastava as pernas ao andar, e o rosto fazia caretas que ele não controlava. Varria as folhas e as flores caídas da praça com uma vassoura de mato, dessas antigas, feitas de galhos amarrados, não as de fábrica. E o banheiro, é preciso dizer, era bem cuidado. Ele cuidava.

Meu irmão tinha medo dele. Medo das caretas, do jeito de andar, de tudo que naquele homem parecia, aos olhos de uma criança, errado. E eu confesso: eu também mantinha distância. Não por crueldade, e nem sempre por medo — mas porque, simplesmente, eu achava que não tinha o que falar com ele. Ele era parte do cenário, como os coqueiros e o arbusto azul. Uma figura. Um personagem.

Nunca soube o nome dele. Nunca perguntei. Cinquenta anos depois, tento puxar pela memória e o que vem é só isto: o macacão desbotado, as pernas se arrastando, a vassoura de mato varrendo folhas. Os trejeitos, eu guardei. A pessoa, eu perdi. Aliás — a pessoa eu nunca cheguei a ter.

Como se fabrica um monstro?

E é aqui que este texto encontra o seu lugar na série.

Nós rimos da Loira do Banheiro porque sabemos que ela nunca existiu. Mas raramente paramos para pensar de onde vêm as assombrações que povoam praças, casarões e estradas. Muitas delas nascem exatamente como quase nasceu, na minha cabeça de criança, aquele homem: de uma pessoa real, diferente, mal compreendida, que o medo alheio transformou em vulto.

Pense na cena pelos olhos de quem passava embriagado à meia-noite e quarenta: um banheiro oco e escuro, o vento assobiando pelas entradas sem porta, e lá dentro uma figura que se move de um jeito estranho, arrastando as pernas, o rosto se contorcendo em caretas. A mente cansada, assustada, cheia das histórias que já corriam, não vê um trabalhador. Vê um monstro. O corpo diferente aciona no observador o mesmo alarme primitivo que faz a gente estremecer diante de qualquer coisa que se move “errado” — o que a psicologia chama de vale da estranheza. É desumano, mas é assim que o cérebro despreparado reage. E é assim, história após história, susto após susto, que comunidades inteiras pegaram pessoas reais — o “louco” da cidade, a velha que morava sozinha, o homem que era diferente — e as transformaram em lenda.

O monstro quase nunca é o monstro. É quase sempre alguém que a maioria decidiu não olhar de perto.

O que ficou e o que se perdeu.

Hoje eu passo por aquela praça e vejo tudo diferente. A avenida cortou o quarteirão, a feira se mudou para longe, o centro da cidade se deslocou. O arbusto de flores azuis, os coqueiros, o ponto de táxi — alguns resistem, outros só na memória.

E o homem de macacão cinza há muito não está mais lá.

Eu me pego pensando nele com uma vergonha mansa, dessas que só chegam com a idade. Ele tinha um nome — óbvio que tinha. Tinha uma casa, talvez uma família, uma história inteira que começou muito antes de eu nascer e que eu poderia ter conhecido com uma única pergunta que nunca fiz. Ele acordava, vestia aquele macacão, pegava a vassoura de mato e ia manter limpo, dia após dia, um banheiro que as crianças temiam e que os adultos usavam para coisas que fingiam não fazer. Fazia isso com dignidade, num corpo que a vida tornou mais difícil que o meu. E, em troca, a cidade lhe deu o quê? Distância. Caretas imitadas pelas crianças. O silêncio de quem “não tinha o que falar”.

A Loira do Banheiro é a lenda daquela praça. Mas o único fantasma de verdade é ele — não porque assombrava ninguém, mas porque foi apagado tão completamente que hoje sobra só uma silhueta arrastando uma vassoura, sem nome, na memória de um menino que virou velho.

Talvez o resgate mais importante desta série inteira seja este: não o de um monstro, mas o de um homem. Não sei seu nome. Não sei sua história. Mas sei que ele existiu, que trabalhou com honra e que merecia ser lembrado como gente, não como susto. Se este texto faz uma coisa só, que seja esta — devolver, ainda que tarde demais, um pedaço de dignidade a alguém que a teve negada em vida.

O verdadeiro assombro nunca esteve no banheiro. Estava na facilidade com que passamos ao lado de uma pessoa inteira e só enxergamos um vulto.

E você? Existiu, na sua cidade, alguém assim — uma figura que todos temiam ou evitavam, e que talvez fosse só uma pessoa que ninguém quis conhecer? Conta nos comentários. Alguns fantasmas merecem virar gente de novo.

 

Este texto trata, com respeito, da memória de uma pessoa real com deficiência. Foi escrito como homenagem, não como retrato — e propositalmente não a identifica. Que sirva de lembrete de quanto do que chamamos de “estranho” é apenas humano visto de longe.

 

Boitatá: a lenda que a ciência explicou e o medo ignorou.

A casa dos padres: a assombração que morava nos estalos.

O tronco no pátio: a única assombração que era verdade.

Quibungo: o monstro que atravessou o Atlântico.

 

Nem todo medo faz barulho.

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