
Terceiro texto da série Folclore: o resgate do medo.
No primeiro, contei do Boitatá que corria no pasto da minha infância.
Depois, das casas vazias onde eu entrava caçando fantasmas que nunca apareciam.
Este aqui é diferente. Este não tem riso no final.
Eu era a criança curiosa que sempre estava às voltas com minhas reinações.
Se diziam que num lugar tinha assombração, lá ia eu conferir. Nunca vi nenhuma. Ouvi telhados rangendo, ventos assobiando em frestas, tábuas estalando ao entardecer — e saía correndo com os outros meninos, rindo do próprio medo, rico de mais uma história. Assombração, para mim, era isso: um jogo em que o prêmio era o arrepio.
Até o dia em que o jogo parou de ter graça.
A fazenda abandonada
A gente ia pescar num lago de uma fazenda muito longe do centro, na zona rural. Íamos de bicicleta, ou a pé quando a bicicleta faltava — uma expedição de meninos, varas de pescar, o dia inteiro pela frente. Isso foi há mais de cinquenta anos; hoje eu nem sei se o lago ainda existe.
No caminho, havia um casarão bem antigo. A fazenda já era abandonada naquela época — a casa grande entregue ao tempo, sem dono à vista, do tipo que normalmente me faria desviar da rota só para espiar pelas janelas. Casarão abandonado era exatamente a minha especialidade.
Mas não era o casarão que me intrigava.
Eram os mourões fincados no pátio da casa. E, entre eles, um tronco mais velho que os outros, carcomido pelo tempo, que ninguém precisava explicar duas vezes.

O que o sol mostrava
A história, todo mundo contava: ali, naquele pátio, escravizados haviam sido açoitados. O tronco era o que restava disso.
E, no fim da tarde, quando o sol batia na madeira velha em raios rasantes e brilhantes, acontecia a coisa que me acompanha até hoje: a madeira parecia manchada. Escura em uns pontos, avermelhada em outros, como se o tronco ainda guardasse — literalmente, diante dos nossos olhos — o sangue de quem apanhou amarrado nele.
Nós víamos. Não era história de um menino exagerado: era o bando inteiro, olhando o mesmo tronco, vendo a mesma coisa. E o que aquilo causava não era o medo divertido das casas vazias. Era outra coisa, que na época eu não sabia nomear — um arrepio misturado com um aperto, uma vontade de olhar e de não olhar ao mesmo tempo. Hoje eu chamaria de repulsa. Ou de vergonha antecipada, dessas que a gente sente antes de entender por quê.
Nas casas assombradas, a gente corria rindo. Dali, ninguém saía rindo.
O que os olhos faziam
Existe explicação, e ela tem duas partes.
A primeira é óptica. Madeira exposta por décadas ao tempo escurece de forma irregular: resina, chuva, fungos, os desgastes dos veios criam manchas e sulcos que não seguem padrão nenhum. A luz do fim de tarde — rasante, alaranjada, quase vermelha — entra nesses sulcos e acende uns pontos enquanto afunda outros em sombra. O resultado é uma superfície fisicamente ambígua: manchas escuras e avermelhadas que podem ser qualquer coisa.
A segunda parte é o que a mente faz com a ambiguidade — e é aqui que mora o fenômeno. O cérebro detesta imagem sem resposta. Diante do ambíguo, ele resolve usando o que sabe sobre aquilo que olha. E nós sabíamos. Tínhamos ouvido a história antes de ver o tronco. Então, quando a luz oferecia manchas indefinidas, a mente completava com a única resposta disponível: sangue. Não era ilusão no sentido de mentira — era percepção guiada pela narrativa, o mesmo mecanismo que fazia cada estalo das casas vazias soar como passo. A história chega primeiro; os olhos obedecem.
Eu poderia encerrar aqui, como encerrei o texto do Boitatá: a ciência explica, o medo ignora, fim. Mas este texto não termina assim.
A diferença
Porque há uma diferença entre este arrepio e todos os outros, e ela importa mais do que qualquer explicação óptica.
O Boitatá era capim ardendo e vento. A casa que rangia era madeira dilatando ao sol. As assombrações que perseguiram a infância inteira eram, todas, inventadas — e por isso podiam divertir.
O tronco não. O tronco era exatamente o que diziam que era. A história que contavam não era lenda: era memória. Naquele pátio, pessoas foram amarradas e açoitadas de verdade, e o instrumento disso continuava ali, de pé, meio século ou mais depois, fincado no chão de uma fazenda que todo o resto abandonou. Foi-se o dono, foi-se a lavoura, ficou o tronco — como se nem o abandono tivesse coragem de derrubá-lo.
Talvez, então, o que sentíamos diante dele não fosse falha nenhuma da percepção. Talvez fosse a percepção funcionando com precisão absoluta. O sangue que a luz desenhava na madeira era ilusão de ótica; o sangue que a madeira testemunhou, não. Diante de certos objetos, o arrepio não é o cérebro se enganando — é o cérebro entendendo.
Os estudiosos da memória têm um nome para lugares assim: lugares de memória — sítios e objetos que carregam o passado de um jeito que nenhum livro carrega. Um menino de oito anos não conhece o termo. Mas reconhece o lugar na hora. O corpo avisa.
O que ficou
Nunca mais voltei àquela fazenda. Não sei se o casarão resiste, se o pátio existe, se alguém um dia arrancou o tronco ou se ele segue lá, carcomido, esperando o sol das cinco da tarde para mostrar suas manchas a outros meninos.
Mas aprendi ali, sem saber que aprendia, a lição que organiza tudo o que escrevo neste blog: as assombrações inventadas divertem; as verdadeiras envergonham. O terror que criamos — o Boitatá, a Pisadeira, as casas que falam — é um jogo antigo e saudável que a mente joga consigo mesma. O horror que fizemos uns aos outros é outra categoria, e diante dele o arrepio não é entretenimento: é o mínimo.
Há memórias que um país inteiro prefere ver como mancha de sol na madeira.
Naquele pátio, por alguns fins de tarde da minha infância, a luz não deixou.
Este texto trata de memória e história real.
A escravidão no Brasil não é folclore — é um passado documentado cujas consequências seguem presentes.
Que a lembrança sirva ao respeito, nunca ao espetáculo.
A casa dos padres: a assombração que morava nos estalos.
Boitatá: a lenda que a ciência explicou e o medo ignorou.
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