Primeiro conto da Trilogia do Esquecimento.
I. A primeira sessão
Ele chegou numa terça-feira de chuva fina, dessas que não molham, só pesam.
Clara Moreau já atendia havia onze anos e tinha aprendido a ler as pessoas pela forma como se sentavam. Os ansiosos ficavam na beirada da poltrona. Os deprimidos afundavam. Os mentirosos cruzavam as pernas cedo demais. Tomás Avelar não fez nada disso. Sentou-se como quem já conhecia aquela poltrona, como quem voltava a ela depois de muito tempo.
— Eu me lembro de coisas que não aconteceram comigo — disse ele, antes que ela perguntasse qualquer coisa.
Tinha uns trinta anos, talvez menos. Pele muito clara, quase sem sangue por baixo. Usava um casaco de lã escura que não combinava com outubro, e as mãos, pousadas nos joelhos, não se mexeram uma única vez durante os cinquenta minutos.
— Que tipo de coisas? — Clara anotou a data no bloco. 14 de outubro.
— Um corredor de terra batida. Cheiro de vela de sebo. Uma menina de vestido azul segurando a minha mão e dizendo que não era para chorar, porque quem chora faz barulho, e barulho fecha a porta.
Ele disse aquilo sem emoção nenhuma, como quem lê uma lista de compras.
— E de quem são essas memórias, Tomás?
Pela primeira vez ele a olhou nos olhos. Os dele eram de um cinza sem fundo, como água de poço.
— Eu esperava que a senhora me dissesse.
Naquela noite, ao transcrever as anotações, Clara percebeu que tinha escrito quem chora faz barulho três vezes seguidas na margem do bloco. Não se lembrava de ter feito isso. A letra era a dela. Mais inclinada, talvez. Mais antiga.
II. O que a fita guarda
Nas semanas seguintes, as memórias de Tomás ganharam endereço.
Uma capela de taipa no alto de um morro. Bancos de madeira dispostos em círculo, não em fileiras. Vinte e três pessoas sentadas de olhos fechados, ouvindo. Não rezavam: ouviam. Um homem de barba grisalha, a quem todos chamavam de Mestre Ilídio, ensinava que o mundo era feito de ruído e que, por trás do ruído, havia um outro lugar. O silêncio não é ausência, dizia ele. O silêncio é uma porta que ninguém tem paciência de abrir.
— Onde fica essa capela? — perguntou Clara na quarta sessão.
— A senhora sabe onde fica.
E ela sabia. Soube no instante em que ele descreveu a figueira torta ao lado da porta, o sino sem badalo, a placa de ferro com o nome quase apagado pela ferrugem. Capela de Santa Edwiges do Ermo. São Bento do Ermo, a cidade onde ela nasceu e da qual saiu aos dezessete anos sem olhar para trás.
Clara começou a gravar as sessões. Disse a si mesma que era por rigor clínico. Na verdade, queria ouvir de novo a voz dele quando estivesse sozinha, porque havia nela um timbre que lhe dava sono e medo ao mesmo tempo, como uma cantiga de ninar cantada num quarto escuro.
Na sexta sessão, Tomás descreveu o fim.
— Foi na noite de 2 de novembro. Finados. O Mestre disse que naquela noite os mortos ficam mais perto, e que bastava um silêncio perfeito para a porta abrir. Ninguém podia fazer barulho. Nem respirar alto. Ficamos assim horas. E então alguém chorou.
— Quem?
— Uma criança. — Ele inclinou a cabeça, como se escutasse alguma coisa atrás dela. — E o Mestre tinha dito o que acontecia com quem fizesse barulho.
Clara não perguntou o que acontecia. Ao chegar em casa, procurou na internet: São Bento do Ermo 1974. Encontrou uma nota curta num arquivo digitalizado de jornal regional. Vinte e três mortos numa capela rural. Seita religiosa. Sem sobreviventes identificados. Caso arquivado.
Depois, pôs a gravação para tocar.
Ouviu a própria voz fazer a pergunta: Quem?
E então ouviu silêncio. Um silêncio longo, espesso, de quase um minuto, sem o chiado do gravador, sem a chuva da janela, sem nada. Um silêncio que parecia ter profundidade, como se fosse possível cair dentro dele.
No fim do silêncio, alguém sussurrou, muito perto do microfone:
Clarinha, não chora.
Ninguém a chamava de Clarinha desde que a avó morreu.
III. São Bento do Ermo
As visões começaram na estrada.
No começo eram pequenas falhas, como se o mundo piscasse. Um poste que por meio segundo era de madeira, não de concreto. Um Fusca bege estacionado num acostamento onde, ao olhar de novo, não havia carro nenhum. Uma placa, São Bento do Ermo — 12 km, em letras que ela só tinha visto em fotografia antiga.
A cidade tinha encolhido. Ou talvez fosse ela que tivesse crescido longe dali. Ruas de paralelepípedo, uma praça com um coreto descascado, uma igreja matriz que tocava o sino às seis da tarde para ninguém. E as pessoas: poucas, velhas, e quietas de um jeito que não era timidez. Falavam baixo. Fechavam as portas devagar. Na padaria, quando Clara deixou cair as chaves no chão, três pessoas se viraram para ela com uma expressão que não era susto. Era reprovação.
Foi a dona da pensão, Dona Zulmira, que lhe contou o que os jornais não contaram.
— A gente não fala dos Ouvintes, moça. Não por medo. É costume. — Ela servia café sem fazer barulho com a xícara, pousando-a no pires como quem pousa um passarinho. — Eles chegaram aqui em 1969. Gente boa, no começo. Ajudavam na colheita, cuidavam dos doentes. O Ilídio sabia acalmar criança com febre só de ficar quieto do lado dela. Depois foi ficando estranho. Começaram a cobrir as janelas da capela com colchão. Pararam de falar na rua. Diziam que estavam ouvindo uma coisa e que, se o resto da cidade fizesse silêncio também, todo mundo ia ouvir.
— Ouvir o quê?
Dona Zulmira demorou a responder.
— Quem já morreu. Quem ainda não nasceu. Diziam que do outro lado da porta não tem tempo, e que tudo que a gente perdeu continua lá, esperando alguém ficar quieto o bastante pra escutar.
Clara perguntou o nome das famílias. A velha desviou os olhos para a janela.
— A senhora é neta da Helena, não é? Da Helena Moreau.
Naquela noite, no quarto da pensão, Clara teve a primeira visão completa. Não foi um sonho, porque ela estava sentada na cama, acordada, com a luz acesa. Simplesmente, a parede à sua frente deixou de ser parede, e ela estava dentro da capela, sentada num banco do círculo, sentindo o cheiro de sebo e de suor e de terra úmida. Vinte e dois rostos de olhos fechados ao seu redor. No centro do círculo, de pé e imóvel como um poste, o Mestre Ilídio.
E do lado dela, segurando a sua mão com força, uma menina de vestido azul.
A menina se inclinou e sussurrou, sem abrir os olhos:
Agora é a sua vez de não chorar.
IV. O diário de Helena
A casa da avó continuava de pé, fechada desde o enterro. A mãe de Clara nunca quis vendê-la e nunca quis entrar nela. Deixa quieto, era tudo o que dizia quando o assunto surgia. Era a frase da família. Deixa quieto. Não mexe. Não pergunta. Clara cresceu acreditando que aquilo era só o jeito delas, mulheres de pouca conversa. Só agora percebia que o silêncio tinha sido herdado como se herda um formato de nariz.
O diário estava no fundo de uma lata de biscoitos, embrulhado em papel de pão, debaixo do assoalho do quarto. Clara não precisou procurar. Entrou no quarto, olhou para a tábua solta perto da cama e soube. Como se lembrasse.
A letra era de criança no começo, arredondada, com erros de ortografia. Helena tinha doze anos em 1974.
O Mestre diz que eu tenho o dom. Que eu sou a mais quieta de todos. Que quando eu fecho os olhos a porta fica mais perto. Mamãe chora de orgulho, mas chora baixinho, pra não estragar.
O Tomás tem sete anos e tem medo do escuro. Eu prometi segurar a mão dele no dia de Finados. Ele faz barulho quando respira. O Mestre já avisou que se ele fizer barulho a porta fecha com a gente do lado errado.
Clara parou de ler. Ficou muito tempo sentada no chão, com o caderno no colo, ouvindo a própria respiração e achando-a alta demais.
Tomás. Sete anos. A criança que chorou.
As últimas páginas tinham outra letra. Mais firme, mais adulta, escrita anos depois, talvez décadas. A mesma mão, envelhecida.
Ele chorou. Eu apertei a mão dele com toda a força e ele chorou mesmo assim. E a porta não fechou. A porta abriu pela metade. Eu vi o que estava do outro lado e não era quem tinha morrido. Era uma coisa que tinha fome de barulho. Ela entrou e foi levando um por um, começando por quem gritou. Eu não gritei. Fiquei de olhos fechados a noite inteira, até o sol nascer, e quando abri estava sozinha com vinte e três corpos e uma cadeira que ninguém tinha usado.
Eram vinte e quatro cadeiras. A vigésima quarta era para a próxima geração. O Mestre dizia que a porta só se abre por inteiro quando o sangue dos Ouvintes fica quieto de verdade, sem medo, sem choro, sem culpa. Eu tive culpa. Por isso a porta ficou entreaberta. Por isso ela ainda escuta.
Nunca contei pra ninguém. Ensinei minha filha a não perguntar. Se um dia uma das minhas meninas voltar para cá, que Deus me perdoe, porque ela vai ouvir o menino chamando. Ele não sabe que morreu. Ele só quer terminar a noite.
Na última linha, a tinta tinha borrado, como se tivesse molhado.
Perdão, Tomás. Eu soltei a sua mão.
V. A vigésima quarta cadeira
Clara ligou para a secretária do consultório de um orelhão da praça, porque o celular, em São Bento do Ermo, não pegava em lugar nenhum.
— Renata, preciso do contato do Tomás Avelar. Ficha completa.
Do outro lado, um silêncio curto. Educado demais.
— Doutora, não tem nenhum Tomás no sistema.
— Terças, às quatro. Há seis semanas.
— Terça às quatro a agenda está bloqueada desde outubro. A senhora mesma pediu. Disse que era para estudo de caso. — Renata hesitou. — A senhora entra na sala, fecha a porta e fica lá os cinquenta minutos. A gente escuta a senhora falando. Achei que fosse ditado.
Clara desligou sem se despedir.
Na pensão, pôs as gravações para tocar uma atrás da outra, com fones, de olhos fechados. E finalmente ouviu o que sempre esteve ali. Só havia uma voz. A dela. Ela perguntava, e depois ela mesma respondia, um pouco mais grave, um pouco mais lenta, com um sotaque do interior que ela tinha passado a vida inteira tentando apagar. Eu me lembro de coisas que não aconteceram comigo. Era a sua boca dizendo aquilo. Sempre tinha sido.
Ela pensou em todos os sinais que, como psicóloga, teria reconhecido em qualquer outra pessoa. A poltrona que nunca afundava. As mãos que nunca se mexiam. A ausência de pagamentos, de documentos, de um telefone de contato. O casaco de lã fora de estação, igual ao da fotografia de Helena menina que ficava na sala da avó. E o mais óbvio de todos: Tomás tinha sete anos. Uma criança de sete anos não marca consulta sozinha. Então a mente dela, que precisava escutá-lo, deu a ele um corpo de adulto, um nome completo, um horário na agenda. Uma forma que ela fosse capaz de atender.
O menino nunca tinha procurado uma psicóloga. Tinha procurado a única pessoa da linhagem de Helena que passou a vida inteira aprendendo a ficar calada enquanto os outros falavam. A ouvinte perfeita.
Aquela noite, Clara não teve visão nenhuma. Teve algo pior: clareza. Pegou o calendário pendurado atrás da porta do quarto. Faltavam dois dias para Finados.
E, pela primeira vez desde que tinha chegado à cidade, ela percebeu que não ouvia nada. Nem o relógio da matriz. Nem os cachorros. Nem a própria respiração. A cidade inteira tinha ficado em silêncio, como uma plateia que se ajeita na cadeira quando as luzes se apagam.
VI. Eco
Na noite de 2 de novembro, Clara subiu o morro sem lanterna. Não precisava. Os pés conheciam o caminho, ou alguém dentro dela conhecia.
A capela estava em ruínas, sem telhado, com uma figueira crescendo por dentro das paredes. Mas os bancos estavam lá. Vinte e quatro, dispostos em círculo, intactos como se alguém os tivesse limpado naquela tarde. Em vinte e três deles havia alguém sentado. Não eram corpos, nem fantasmas, nem nada que ela soubesse nomear. Eram contornos de gente feitos de ausência, como o desenho que a poeira deixa quando se tira um quadro da parede. Todos de olhos fechados. Todos ouvindo.
Tomás estava no lugar dele. Tinha sete anos agora, o tamanho certo, os joelhos ralados, o casaco de lã grande demais. Ao lado dele, a vigésima quarta cadeira.
Ele estendeu a mão.
Clara entendeu o que se esperava dela. Sentar. Fechar os olhos. Ficar quieta até o amanhecer, sem medo, sem choro, sem culpa. Fazer o que a avó não conseguiu: o silêncio perfeito. E a porta se abriria por inteiro, e o menino terminaria a noite, e os vinte e três deixariam de esperar. Era quase bonito. Era quase misericórdia.
Ela se sentou. Segurou a mão dele. Estava fria e era pequena, e apertou a sua com uma força desesperada.
O silêncio veio. Primeiro o vento parou. Depois os insetos. Depois o sangue nos ouvidos, aquele zumbido que a gente só percebe quando falta. E então Clara sentiu a porta. Não a viu: sentiu, como se sente alguém parado atrás de nós num quarto escuro. Estava na frente dela, no centro do círculo, e do outro lado havia uma coisa paciente. Uma coisa que não tinha fome de barulho, como Helena pensou. Tinha fome de silêncio. Tinha passado cinquenta anos se alimentando do silêncio de uma família inteira. Da avó que nunca contou. Da mãe que nunca perguntou. Da neta que escolheu uma profissão em que se passa a vida calada, ouvindo a dor dos outros para não ter que dizer a própria.
A porta não se abria com silêncio. A porta era o silêncio.
Tomás apertou mais a mão dela. Ela abriu os olhos e viu que ele estava chorando, sem som, com a boca torcida e as lágrimas descendo, tentando com todas as forças não fazer barulho. Do jeito que tinham ensinado. Do jeito que tinham ensinado a ela.
Clara respirou fundo. Alto. Uma respiração ruidosa, feia, de quem está prestes a se afogar.
— Pode chorar, Tomás.
A voz dela rasgou a capela como um vidro quebrando. Os vinte e três contornos estremeceram. Do centro do círculo veio algo que não era um som, mas a ausência violenta de um, como um vácuo puxando o ar dos pulmões.
Clara se levantou e começou a dizer os nomes. Os nomes que estavam no diário, na última página, escritos pela avó em letra de velha, numa lista que ela nunca teve coragem de ler em voz alta. Ilídio. Josefa. Benedito. Maria das Dores. Um por um, gritando, chorando, com a voz cada vez mais rouca. A cada nome, um dos contornos abria os olhos, e o que havia nos olhos não era horror. Era alívio. E então o banco ficava vazio.
O último nome foi o do menino. Quando ela o disse, Tomás chorou alto, um choro enorme de criança, cheio de catarro e de soluço, um choro de cinquenta anos. E sorriu. E também não estava mais lá.
A porta se fechou. Clara sentiu isso como se sente uma pressão no ouvido que estoura dentro de um avião.
E depois disso, não ouviu mais nada.
Os médicos não encontraram lesão. Tímpanos intactos, nervo auditivo perfeito, exames normais. Surdez psicogênica, escreveu um deles no laudo, com uma caneta que Clara viu riscar o papel sem fazer ruído. Ela achou graça. Tinha dado aquele diagnóstico a três pacientes ao longo da carreira.
Em São Bento do Ermo, dizem que as pessoas voltaram a falar alto. Que a padaria agora tem rádio. Que no último Finados alguém soltou rojão na praça e ninguém reclamou.
Clara voltou para o consultório. Lê lábios, escreve no bloco, atende menos. Ninguém sabe que o silêncio dela não é vazio. Que, quando a sala fica quieta o bastante, ainda dá para sentir a porta, fechada agora, mas do lado de dentro. Ela ficou com a porta. Alguém precisava ficar.
Às terças, às quatro, a agenda continua bloqueada. Clara entra na sala, fecha a porta e se senta diante da poltrona vazia.
A poltrona ainda está vazia.
Mas agora ela afunda.
Continua em Sombras do Esquecido, o segundo conto da Trilogia do Esquecimento.