Sombras do Esquecido

Uma carta sem remetente leva um jovem jornalista a uma paciente surda que não dorme há oito anos. Na cidade dela, pessoas desaparecem depois de lembrar de coisas que nunca viveram.

Segundo conto da Trilogia do Esquecimento. Se ainda não leu o primeiro, comece por Ecos do Silêncio.

I. A paciente do quarto 14

A carta chegou à redação dentro de um envelope pardo, sem remetente, com um carimbo do correio de uma cidade que Lucas Ferraz precisou procurar no mapa. Era a sétima carta do mesmo tipo, segundo a editora, que as jogava fora sem abrir. Aquela só escapou porque caiu atrás do arquivo de metal e ficou lá até a faxina de março.

A letra era firme, de quem escreve muito. Uma única frase ocupava a folha inteira:

Eu não fechei a porta. Eu só estou segurando. E estou ficando cansada.

Embaixo, uma assinatura: Clara Moreau. E um endereço: Casa de Saúde Santa Mônica, ala B, quarto 14.

Lucas tinha vinte e seis anos, um contrato de freelancer que vencia em dois meses e a convicção, ainda não desmentida, de que histórias boas se escondem nos lugares onde ninguém quer olhar. Pegou um ônibus no sábado.

O hospital ficava no fim de uma estrada de terra, cercado por eucaliptos que não faziam sombra. Por dentro, tinha cheiro de cera de chão e de comida requentada. A enfermeira-chefe o levou pelo corredor com a pressa de quem já fez aquilo muitas vezes.

— Ela não escuta nada. Surdez total, faz oito anos. Mas lê lábio melhor que muita gente ouve. Fala devagar e olha pra ela.

— Por que ela está internada?

A enfermeira parou diante da porta 14.

— Porque ela não dorme. Diz que, se dormir, solta. — Abriu a porta. — Solta o quê, ninguém nunca soube.

Clara estava sentada junto à janela, de costas. Cabelo grisalho cortado curto, ombros magros dentro de um cardigã cinza. Na mesinha ao lado, pilhas de cadernos escolares, dezenas, todos com a capa preenchida pela mesma letra firme. Quando Lucas entrou, ela não se virou. Mas disse, com a voz de quem não ouve a própria voz há muito tempo, plana e um pouco alta demais:

— Você demorou. Ela demorou a cair do arquivo.

Lucas ficou parado na porta. Não tinha contado a ninguém sobre o arquivo.

Clara se virou. Os olhos dela eram de um castanho comum, cansados, cercados de olheiras fundas como hematomas. Olhou para a boca dele, esperando.

— Como a senhora sabe disso? — ele perguntou, devagar.

— Eu não sei. Eu me lembro. — Ela apontou para a cadeira vazia em frente. — É esse o problema, Lucas. Está todo mundo começando a se lembrar.

II. O arquivo de áudio

Clara não quis falar mais naquele dia. Escreveu um nome num pedaço de papel e o empurrou pela mesa: Dr. Otávio Abreu. O psiquiatra que a atendeu nos primeiros três anos de internação, antes de pedir transferência para outro estado sem explicar o motivo.

Lucas o encontrou numa cidade litorânea, aposentado cedo, morando numa casa onde todos os aparelhos ficavam ligados ao mesmo tempo: televisão, rádio, ventilador, a máquina de lavar girando vazia. O médico abriu a porta, ouviu o nome de Clara e ficou um bom tempo olhando para a rua.

— Eu gravava as sessões — disse por fim. — Ela pediu. Disse que não podia ouvir a própria voz e precisava que alguém ouvisse por ela. Tenho uma que nunca mostrei a ninguém.

Entregou um pen drive. Não quis tocar a gravação na frente de Lucas.

— Escuta com barulho em volta — avisou, já fechando a porta. — Nunca escuta isso no silêncio.

Lucas escutou no quarto da pousada, à meia-noite, com o ventilador desligado. Claro que escutou no silêncio. Era jornalista.

O arquivo tinha quarenta e um minutos. Nos primeiros dez, só a voz do Dr. Abreu fazendo perguntas de rotina e Clara respondendo com aquela entonação plana de quem fala no escuro. Então ela começou a falar sem ser perguntada.

Eu achava que tinha fechado uma porta. Mas porta é coisa de quem ainda acredita que existe um lado de cá e um lado de lá. Não é uma porta, doutor. É um véu. Uma coisa fina, que se mexe com o vento, que a gente atravessa sem perceber o tempo todo. Toda vez que alguém esquece uma coisa, ela passa para o outro lado.

O outro lado é feito disso. De tudo que foi esquecido. O nome do primeiro cachorro. A cara da sua bisavó. O que você sentiu na manhã em que fez cinco anos. Nada disso morre. Fica lá, vivo, andando, esperando. Uma cidade inteira de memórias sem dono.

E tem uma coisa que mora lá. Ela não tem forma própria, porque nunca foi lembrada por ninguém. Então ela veste o que encontra. Usa as memórias esquecidas como a gente usa roupa. Por isso parecia o Tomás. Por isso parecia a minha avó. Ela vestiu a minha família inteira, doutor, porque a minha família passou cinquenta anos esquecendo de propósito.

Um silêncio. Depois, mais baixo:

O ritual não acabou. Eu só parei no meio. Estou com o véu preso aqui dentro, na cabeça, como quem segura uma cortina com as duas mãos durante uma ventania. Enquanto eu segurar, ela fica do lado de lá. Mas eu estou ficando velha. E ela aprendeu um jeito de puxar por fora.

Ela está dando memórias para as pessoas. Memórias que não são delas. Como uma isca. E quando a pessoa começa a acreditar na lembrança, quando começa a viver dentro dela, o véu fica fino ali. Fino o bastante para passar.

O Dr. Abreu perguntou alguma coisa que a gravação não captou direito.

Para onde as pessoas vão? Para lá, doutor. Viram memória também. Viram roupa.

No minuto trinta e oito, Clara disse uma coisa que fez Lucas parar a gravação, voltar e ouvir de novo três vezes.

Vai vir um rapaz. Novo, de óculos, com uma cicatriz pequena no queixo. Ele vai achar que está investigando. Mas ele já esteve lá. Ele só não lembra.

Lucas levou a mão ao queixo. A cicatriz era de um tombo de bicicleta, aos oito anos. Ele se lembrava do tombo com perfeição: a rua, o portão verde da vizinha, a mãe correndo com um pano de prato.

E, pela primeira vez na vida, perguntou a si mesmo como podia ter tanta certeza.

III. Os que lembram

São Bento do Ermo já não era silenciosa. Era pior: era barulhenta de um jeito nervoso. Rádios ligados em todas as janelas, televisões de portas abertas, um carro de som que passava duas vezes por dia anunciando promoções de uma loja que tinha fechado. Como se a cidade inteira tivesse aprendido, sem que ninguém ensinasse, que ficar quieta era perigoso.

Na delegacia, um escrivão entediado confirmou o número: onze desaparecidos em quatorze meses. Nenhum corpo. Nenhum sinal de violência. Portas trancadas por dentro, camas desfeitas, chinelos no pé da cama.

— Gente velha, a maioria — disse o escrivão, sem tirar os olhos do computador. — Velho some. Vai pra casa de parente, esquece de avisar.

Não eram só velhos. Lucas montou a lista na parede do quarto da pousada, com fita crepe e fotos impressas na papelaria da praça.

Seu Anselmo, setenta e um anos, padeiro aposentado. Duas semanas antes de sumir, contou na fila do banco que estava com saudade da esposa, Iracema. Anselmo nunca tinha se casado.

Beatriz, quinze anos, neta de Dona Zulmira. Desenhou no caderno de artes o interior de uma capela, com vinte e quatro bancos em círculo e uma figueira crescendo por dentro. Nunca tinha subido o morro. A capela tinha caído antes de ela nascer.

Regina, técnica de enfermagem, trinta e oito anos. Pediu afastamento do posto de saúde porque não conseguia parar de lembrar do próprio afogamento. Regina nunca tinha entrado num rio.

E assim por diante. Onze pessoas. Onze memórias que não pertenciam a ninguém, ou pertenciam a alguém que já não estava lá para reclamar.

O padrão demorou a aparecer porque Lucas procurava no lugar errado. Procurava nas pessoas: idade, profissão, parentesco. Só encontrou quando a Dona Zulmira, já sem forças para chorar a neta, lhe emprestou um rolo de papel amarelado que o marido guardava. Uma planta da prefeitura, de 1973. Um projeto de galerias pluviais que nunca chegou a ser concluído.

— Os Ouvintes que cavaram — ela disse. — Se ofereceram de graça. Diziam que debaixo da terra era mais quieto.

Lucas estendeu a planta sobre a cama e marcou com caneta vermelha a casa de cada desaparecido.

Todas as onze estavam em cima dos túneis.

Naquela noite ele ligou para a mãe, como fazia todo domingo. Contou que estava trabalhando numa matéria no interior. Ela perguntou se ele estava se alimentando. Antes de desligar, Lucas disse, sem pensar:

— Lembra do portão verde da Dona Lurdes? Do dia que eu caí de bicicleta?

A mãe ficou quieta do outro lado da linha. Quieta demais.

— Filho, a gente nunca morou perto de nenhuma Lurdes. E você nunca teve bicicleta. Você tinha medo.

IV. Debaixo da capela

A entrada ficava no quintal da Dona Zulmira, debaixo de uma tampa de concreto coberta de musgo, ao lado do tanque. Beatriz dormia no quarto dos fundos, a três metros dali. A velha não quis descer. Ficou de pé no quintal, com o rádio de pilha ligado no máximo, segurando a corda.

Os primeiros vinte metros eram galeria de verdade, de tijolo, com água parada até o tornozelo. Depois o tijolo acabava e começava a terra. Terra cavada à mão, com as paredes alisadas por alguém que tinha tempo e paciência, e o teto tão baixo que Lucas precisou andar curvado, depois de joelhos, depois arrastando-se de lado, com a lanterna presa na boca e o coração batendo contra o chão.

O som foi a primeira coisa que mudou. Não havia eco. Ele tossiu e a tosse não voltou, não ricocheteou, simplesmente acabou, engolida pela terra como água num pano. Depois de algum tempo, nem a própria respiração parecia fazer barulho.

E então começou a ouvir as outras coisas.

Não vinham de lugar nenhum. Vinham de dentro da terra, ou de dentro dele. Uma voz de homem velho dizendo Iracema, fecha a janela que vai chover. Uma menina cantarolando uma música que Lucas nunca tinha ouvido e sabia inteira. Uma mulher tossindo água. Eram fragmentos, frases soltas, como se alguém girasse o dial de um rádio por estações que transmitiam a vida de pessoas que não existiam mais.

Nas paredes, a intervalos regulares, havia nichos cavados na terra. Dentro de cada um, um objeto. Um chinelo de dedo. Um crachá do posto de saúde com a foto de Regina. Um caderno escolar com a capa desenhada por uma adolescente. Ao lado deles, objetos mais antigos, enferrujados, de 1974: um terço, um par de óculos de aro grosso, uma boneca de pano sem rosto. Como um arquivo. Como um guarda-roupa.

O túnel terminava numa câmara redonda, alta o bastante para ficar de pé. Lucas soube, sem precisar calcular, que estava exatamente embaixo do centro do círculo de bancos da capela. Onde o Mestre Ilídio ficava. Onde a porta tinha se aberto pela metade.

No meio da câmara não havia nada. Só um ponto onde a luz da lanterna parecia mais fraca, como se o ar ali fosse mais denso. Uma ondulação. Um tremor na paisagem, como o calor sobre o asfalto em janeiro.

O véu.

E, presa na parede com um prego de ferro, uma fotografia em preto e branco. Os Ouvintes, todos eles, posando em frente à capela no inverno de 1974. Lucas reconheceu Helena menina, de vestido escuro. Reconheceu Tomás, pequeno, apertando os olhos contra o sol. Reconheceu o Mestre Ilídio pela barba.

E reconheceu o rapaz de pé na ponta direita da fila. Óculos. Cabelo castanho. Uma cicatriz pequena no queixo.

O rapaz da foto era ele.

Lucas contou as pessoas da foto duas vezes, com a lanterna tremendo. Vinte e cinco. Em nenhum jornal, em nenhum registro, em nenhuma página do diário de Helena existia um vigésimo quinto.

V. O que Lucas lembra

Ele não se lembrava de ter saído do túnel. Lembrava-se de estar no quintal da Dona Zulmira, molhado até a cintura, com o rádio de pilha chiando entre duas estações e a velha olhando para ele como se olhasse para um estranho.

— Quem é você? — ela perguntou. Depois piscou, balançou a cabeça. — Desculpa, meu filho. Me deu um branco.

Nos dias seguintes, os brancos foram dele.

Começou com coisas pequenas. Abria o caderno de anotações e encontrava páginas escritas com a sua letra, sobre entrevistas que não lembrava de ter feito. Seu Anselmo diz que a Iracema gostava de doce de abóbora. Mas Seu Anselmo tinha desaparecido meses antes de Lucas chegar à cidade. Na galeria do celular, fotos da capela tiradas de dentro, com o telhado inteiro, com os bancos novos, com luz de vela. Data da foto: 2 de novembro de 1974.

Depois as memórias começaram a mudar de lugar. Ele tentava lembrar o rosto da mãe e via o de outra mulher, de lenço na cabeça, cantando baixinho num fogão a lenha. Tentava lembrar o próprio quarto de infância e se via dormindo numa esteira, num cômodo de taipa, ouvindo o Mestre Ilídio ensinar que o mundo é feito de ruído. Tentava lembrar o próprio nome, às vezes, e havia um intervalo, meio segundo, em que nenhum nome vinha.

O pior não era esquecer. O pior era lembrar bem. As memórias falsas eram nítidas, quentes, cheias de cheiro e de detalhe. As verdadeiras estavam ficando pálidas, como fotografia deixada no sol. E ele já não sabia mais, olhando para dentro de si, qual era qual. Só sabia que preferia as falsas. Eram mais bonitas. Nelas o pai não tinha ido embora. Nelas ele pertencia a algum lugar.

Foi assim que entendeu como funcionava a isca.

A coisa do outro lado do véu não roubava ninguém. Ela oferecia. Uma esposa para o padeiro sozinho. Um lugar mágico para a menina que desenhava. Uma morte limpa e silenciosa para a enfermeira exausta. Oferecia uma vida melhor do que a vida, e esperava a pessoa escolher morar nela.

Na terceira noite, a voz falou com ele. Não de fora. Falou com a voz do próprio Lucas, de dentro da cabeça, num tom tão íntimo e razoável que era impossível distinguir de um pensamento.

Você nunca foi ninguém, Lucas. Um rapaz sem pai, com medo de bicicleta, escrevendo matérias que ninguém lê. Olha a foto de novo. Lá você estava em pé, com os outros. Lá você tinha um lugar no círculo. Eu posso devolver isso. Eu guardo tudo o que o mundo esqueceu. Posso te dar uma vida inteira de memórias. Posso te dar todas.

E então, mais baixo, quase com carinho:

Você não precisa ser alguém. Pode ser todo mundo.

O telefone tocou às quatro da manhã. Era a enfermeira-chefe da Santa Mônica. A voz estava trêmula.

— Ela dormiu. Depois de oito anos. Encostou a cabeça na janela e dormiu, e agora não acorda. Os médicos dizem que está viva, mas não responde. — Uma pausa. — Antes de fechar os olhos, ela escreveu uma coisa no caderno. Seu nome. E embaixo: Não aceita nada que ela te der. Lembra do que dói.

Lucas olhou pela janela da pousada. A cidade, que até então vivia ensurdecida de rádios e televisões, tinha ficado em silêncio. Todas as luzes acesas, nenhum som.

Clara tinha soltado.

O véu estava aberto.

VI. O véu

Desta vez ele não desceu pelos túneis. Subiu o morro, como Clara tinha subido oito anos antes. Não havia mais necessidade de caminho escondido: o véu tinha crescido. Saía da câmara subterrânea pelo chão da capela e se erguia no centro do círculo como uma cortina de ar trêmulo, alta até o céu, ondulando sem vento.

Do lado de cá, as ruínas: paredes caídas, a figueira, os bancos podres. Do lado de lá, através da cortina, a mesma capela inteira. Telhado novo. Velas acesas. Vinte e cinco bancos, e em vinte e quatro deles alguém sentado de olhos fechados. Ele viu Seu Anselmo de mãos dadas com uma mulher que nunca existiu. Viu Regina com o cabelo molhado, serena. Viu Beatriz desenhando num caderno, satisfeita, em casa.

Ninguém sofria. Era isso o mais terrível. Do outro lado, todos pareciam em paz.

O vigésimo quinto banco estava vazio. Na frente dele, de pé, um rapaz de óculos com uma cicatriz pequena no queixo.

A coisa usava o rosto de Lucas melhor do que ele próprio. Estava mais descansada, mais segura, mais bonita. Sorriu com uma ternura que Lucas não lembrava de ter visto no espelho.

É simples, disse ela, com a voz dele. Você entra e senta. Eu saio e vivo. Ninguém vai perceber a diferença. Sua mãe vai ter um filho mais atencioso. Sua editora vai ter um jornalista melhor. E você vai ter tudo. Todas as vidas. Todas as lembranças que o mundo jogou fora. Nunca mais vai faltar nada.

Lucas pensou na outra escolha. A de Clara tinha sido segurar. Mas segurar só adiava. Para destruir o véu, ele sabia, precisaria fazer o contrário do que a coisa oferecia. Não aceitar memória nenhuma. Insistir na verdade, mesmo a pobre, mesmo a feia, até que não sobrasse nada falso em que o véu pudesse se apoiar. E quando o véu caísse, tudo o que estava do outro lado voltaria. Tudo o que o mundo esqueceu, de uma vez, por algum lugar.

Por ele.

Caminhou até a cortina. A coisa estendeu a mão, como Tomás tinha estendido para Clara.

Lucas não segurou. Disse, em voz alta, a primeira coisa verdadeira de que conseguiu se lembrar:

— Eu nunca tive bicicleta. Eu tinha medo.

O véu tremeu. Uma rachadura de luz cinza atravessou a capela do outro lado.

— Meu pai foi embora quando eu tinha seis anos. Não deixou bilhete. Minha mãe chorou no banheiro com o chuveiro ligado para eu não ouvir. Eu ouvi.

Outra rachadura. A coisa deixou de sorrir.

Ele foi dizendo. Coisas pequenas e humilhantes. A redação que não ganhou o concurso. A namorada que o deixou por mensagem. O rosto verdadeiro da mãe, cansado, com uma pinta perto da boca, e não o da mulher de lenço no fogão a lenha. Cada memória verdadeira era uma lâmina, e cada lâmina doía nele antes de cortar o véu. A coisa gritava com a voz dele, depois com a voz de Clara, depois com a de Helena menina, depois com vinte e cinco vozes ao mesmo tempo, implorando para que ele parasse, porque do outro lado eles eram felizes, porque a verdade não serve para nada, porque ninguém quer lembrar.

— Clara Moreau — disse Lucas, já de joelhos, com sangue escorrendo do nariz. — Anselmo Bastos. Regina Lopes. Beatriz Nogueira.

Os nomes. Os nomes verdadeiros.

O véu se rasgou de cima a baixo, com um som que não era som, mas a soma de todos os sons que o mundo deixou de ouvir.

E o esquecido voltou.

Não como enchente. Como respiração. Entrou nele de uma vez só: o nome do primeiro cachorro de cada criança da cidade, a cara de cada bisavó, o gosto de cada manhã de aniversário perdida, o medo de cada noite de 1974, a alegria de cada festa de que ninguém mais se lembrava. Milhões de vidas pequenas, sem dono, voltando para casa. E a única casa aberta era ele.


Beatriz Nogueira foi encontrada na manhã seguinte, dormindo no meio das ruínas, sem nenhum arranhão, sem lembrar de nada. Seu Anselmo apareceu na rodoviária de uma cidade vizinha, chorando por uma esposa cujo nome já não sabia dizer. Dos onze, voltaram nove.

Na Casa de Saúde Santa Mônica, Clara Moreau acordou às seis e quinze da manhã, ouviu um passarinho cantando do lado de fora da janela e começou a gritar de alegria.

Lucas Ferraz foi internado em dezembro. Não é violento. Não incomoda ninguém. Está no quarto 14, que ficou vago, e passa os dias junto à janela, escrevendo em cadernos escolares que a família traz em pacotes de dez.

Os médicos chamam de hipermnésia. Ele não esquece nada. Nem o que viveu, nem o que nunca viveu. Lembra de tudo o que você esqueceu hoje de manhã. Lembra do que você vai esquecer amanhã.

Às vezes uma enfermeira pergunta o que ele tanto escreve.

— Estou devolvendo — ele responde.

Ela sorri, faz que sim, e sai do quarto. Na hora do almoço, já esqueceu a conversa.

Ele lembra.


Continua em Além do Véu, o conto final da Trilogia do Esquecimento.

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