A Hora do Lanche

Uma madrugada de 1978 numa metalúrgica parada. Na hora do lanche, um velho operário conta o que viu na beira do telhado — e abre uma comporta de histórias que ninguém tinha coragem de contar.

Conto · Horror Psicológico · Baseado em fatos reais · Turno da madrugada, sexta-feira

“A mente se esmera em lembranças — especialmente nas que deveríamos ter esquecido.”
— Da memória de uma madrugada real

Parte I — A Noite em que as Máquinas Dormiram

Existe uma qualidade diferente no silêncio de uma metalúrgica parada. Não é o silêncio de um quarto, nem o silêncio de um campo aberto. É um silêncio pesado, impregnado de óleo e metal aquecido, como se o ar guardasse a memória de todo o barulho que acabou de ser feito e não soubesse ao certo o que fazer consigo mesmo agora que as máquinas dormiam.

Naquela noite de sexta-feira, os laminadores da metalúrgica Nossa Senhora Aparecida estavam parados pela primeira vez em horas. Era noite de transição — estávamos trocando os roletes para produzir outro perfil, e isso nos deu algo raro naquele trabalho: tempo. Tempo sem função. Tempo sem barulho. Tempo que a mente, acostumada ao ritmo mecânico das máquinas, não sabia bem como ocupar.

Então a gente achava assunto. Mesmo sem tê-los.

Porque a mente se esmera em lembranças.

Éramos cinco ou seis ao redor da mesa do lanche — homens de mãos grossas, acostumados com o peso do metal, com o calor das fornalhas, com a linguagem direta e sem enfeites de quem trabalha com o corpo. Não eram homens dados ao exagero. Não eram homens que inventavam histórias para parecer interessantes. E talvez por isso — por ser exatamente esse tipo de homem — o que o Amaurilho disse naquela noite ficou.

Ficou como fica uma mancha de óleo numa camisa branca. Você lava, esfrega, trata. E o contorno permanece.


Parte II — O Cachimbo e a Chama

Amaurilho era desse tipo de homem que carrega um nome que parece inventado mas é completamente real. Exatamente assim — Amaurilho — com toda a sonoridade antiga e honesta que esse nome carrega. Um homem de meia-idade, cara fechada no trabalho, mas que na hora do lanche abria alguma coisa por dentro e falava.

Naquela noite ele falou diferente.

Estava fumando o cachimbo — ele fumava cachimbo, o que já o tornava uma figura de outra época — e a história saiu de um jeito oblíquo, como saem as histórias que a pessoa não tem certeza se quer contar. Não começou com “deixa eu te contar uma coisa”. Começou com um silêncio. Com ele olhando para o cachimbo na mão. Com algo passando pelos olhos dele que não era da sala.

“Outra noite eu saí pra cachimbar lá fora. Era tarde, tava quente. Daquele calor pesado, sabe? Céu limpo, lua cheia. Fui acender o isqueiro e quando a chama pegou…”

Ele parou. Deu uma tragada longa. O silêncio na sala ficou mais denso.

“Quando a chama pegou, aquele lampejo de luz fez uma sombra aparecer. Não sei explicar direito. A sombra era errada. Não tinha forma certa. Eu olhei pra todos os lados — nada. Mas alguma coisa no meu corpo sabia.”

Existe um tipo de medo que o corpo sente antes da mente processar. Não é o medo do susto — esse você reconhece, identifica, até ri depois. É o outro. O medo que começa nos pelos da nuca e desce pela coluna vertebral como água gelada derramada num dia de calor infernal. O medo que não precisa de nome porque é mais antigo que qualquer nome que demos a qualquer coisa.

“Meu corpo gelou. No meio daquele calor da noite — gelou. E aí eu olhei pra cima.”

A sala estava completamente em silêncio agora. Ninguém tocou no lanche.

“Tinha uma velha na beira do telhado.”

Pausa.

“Fazendo sinal pra mim. Assim…” — ele levantou a mão devagar, dobrou o indicador numa chamada lenta, repetida. Vem. Vem. Vem. — “…como se me chamasse. Ou me avisasse de alguma coisa. Eu não sei. Eu larguei o cachimbo no chão e entrei correndo. Tranquei a porta. Fiquei sentado na cozinha com a luz acesa até o amanhecer.”

Silêncio.

E então, em vez do silêncio se prolongar, aconteceu algo que não esperávamos: alguém disse “comigo aconteceu uma coisa parecida.”

E depois outro. E depois mais um.

As histórias saltaram como fagulhas de solda — rápidas, brilhantes, quentes, cada uma puxando a próxima. Como se o Amaurilho tivesse aberto uma comporta que todo mundo estava esperando alguém abrir primeiro.

“Na hora do lanche, a gente achava assunto mesmo sem tê-los — pois a mente se esmera em lembranças.”


Parte III — O Corredor, a Parede e o Relâmpago

Quando chegou a minha vez, havia uma fração de mim que já sabia que não deveria contar. Não porque a história fosse mentira. Mas exatamente porque era verdade.

Havia sido numa noite de chuva forte. Dessas chuvas do interior que chegam sem aviso e desligam o mundo — a energia foi embora e ficou só o barulho da tempestade e aquela escuridão total que a cidade nunca deixa você sentir, mas o interior conhece bem.

Para chegar ao banheiro do galpão, você percorria um corredor comprido. De um lado, parede de alvenaria — sólida, definitiva, pintada de branco que no escuro virava cinza-osso. Do outro lado, uma parede de metal perfurada — chapas com micro-furos, usadas para ventilação, que de dia eram apenas parede e de noite, quando a luz certa incidia sobre elas, tornavam-se quase transparentes.

Quase.

Esse quase é onde a história mora.

Eu estava no meio do corredor quando o relâmpago aconteceu.

Não foi um relâmpago distante, daqueles que iluminam o horizonte como um flash fotográfico suave. Foi um relâmpago próximo, violento, branco-azulado — o tipo que racha o céu como papel e ilumina tudo com uma claridade que parece durar mais do que dura porque o olho não está preparado para tanta luz no meio de tanta escuridão.

Por um instante — a fração de segundo que dura o clarão — a parede de metal perfurada deixou de ser parede.

Tornou-se transparente.

E do outro lado havia algo.

Eu vi. Não sei o que vi. Mas vi. Não era humano — não da forma como vemos uns aos outros, com a solidez e o peso que os corpos têm quando ocupam um espaço. Era uma presença que o relâmpago revelou e o trovão imediato — aquele barulho que parece que o céu está sendo rasgado de dentro para fora — engoliu junto com a luz. Uma fração de segundo. O tempo que dura um faíscar no céu. Longo o suficiente para que o olho registrasse. Curto demais para que a mente pudesse catalogar, nomear, arquivar em alguma pasta segura chamada explicação razoável.

O vento rugia. A chuva batia em diagonal contra o metal. O trovão ainda vibrava no peito quando as pernas me levaram de volta — não para o banheiro, não para o galpão, mas para dentro. Para a luz. Para onde havia outros seres humanos acordados e vivos e com rostos que eu reconhecia.

Fiquei parado por um tempo que não sei medir.

E depois não contei para ninguém.

Até aquela noite.

Até a hora do lanche.

Até o Amaurilho abrir a comporta.


Parte IV — O que Fica

Terminamos o lanche. Os roletes foram trocados. As máquinas voltaram a fazer barulho — aquele ruído imenso, mecânico, reconfortante de coisas funcionando como deveriam funcionar. O cheiro de metal quente voltou a ocupar o ar. A madrugada passou para a manhã. A sexta passou para o sábado. O trabalho continuou.

Mas alguma coisa daquela noite não foi embora com o turno.

Não sei o que o Amaurilho viu naquela noite enluarada, com o cachimbo na mão e o isqueiro aceso. Não sei se a velha na beira do telhado era real, era produto de uma mente cansada jogada num estado de alerta por uma sombra estranha, era memória de alguma história que ele mesmo havia ouvido anos antes e que emergiu travestida de experiência presente. Não sei.

Não sei o que eu vi naquele corredor, atrás da parede de metal, no flash do relâmpago. Não era humano — não da forma que conheço. Mas humano ou não, existente ou não, real ou não — eu vi. Meu corpo respondeu. Aquele frio no meio do calor, aquela certeza anterior à razão.

Isso aconteceu. Isso eu sei.

O que aconteceu é que não sei.

E talvez seja exatamente essa a natureza das experiências que nos acompanham para sempre — não as que têm resposta, mas as que ficam abertas. Como uma porta que você não tem certeza se fechou. Como um nome que alguém chamou mas quando você vira ninguém está lá. Como uma velha na beira de um telhado fazendo sinal numa noite de lua cheia para um homem que só queria fumar o seu cachimbo em paz.

Verdade ou imaginação.

Eu não sei.

Mas fica a dúvida.

E a dúvida, descobri naquela madrugada enquanto as máquinas voltavam a trabalhar e a conversa voltava ao ritmo normal de homens cansados no fim de um turno — a dúvida é o único tipo de coisa que não envelhece. Não apodrece. Não se desfaz com o tempo.

A dúvida fica.

Como a velha na beira do telhado.

Fazendo sinal.

— fim —


Nota do autor

Este conto é baseado em experiências reais, vividas numa madrugada de trabalho numa metalúrgica do interior de São Paulo, em 1978. Eu tinha dezoito anos, e aquele era o meu primeiro emprego. O Amaurilho já era um senhor naquela época, e fumava cachimbo de verdade. A metalúrgica fechou há muito tempo. Hoje, no lugar dela, restam apenas os galpões abandonados.

O que foi visto naquelas noites, cada um carrega sozinho. Este conto é apenas a tentativa de dar forma — e talvez algum repouso — ao que nunca teve nome.

Verdade ou imaginação. Fica a dúvida.

Leia também: Ecos do Silêncio, o primeiro conto da Trilogia do Esquecimento.

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