Terceiro e último conto da Trilogia do Esquecimento, depois de Ecos do Silêncio e Sombras do Esquecido.
I. O mundo que lembra errado
O primeiro sinal foi uma nota de rodapé. Uma agência de notícias corrigiu a data de um armistício assinado em 1953. Depois corrigiu de novo. Na terceira correção, metade dos historiadores consultados jurava que o armistício nunca tinha sido assinado, e a outra metade se lembrava dos nomes das crianças que morreram nos combates que ele encerrou.
Ninguém mentia. Era isso que os especialistas não conseguiam explicar na televisão. Todos lembravam com sinceridade, e as lembranças não batiam.
Em fevereiro, uma cidade inteira na Polônia acordou certa de que o rio que a atravessava tinha secado em 1990. As crianças não sabiam nadar. Os barcos estavam apodrecendo em garagens. E o rio continuava lá, correndo, cheio, diante de vinte mil pessoas que olhavam para ele como quem olha para um fantasma.
Em março, um vilarejo no Quênia lembrou de um massacre que não aconteceu. Lembrou com tanta força que foi buscar os culpados na aldeia vizinha.
Em abril, as pessoas começaram a lembrar com o corpo.
Um motorista de ônibus em Recife apareceu com uma cicatriz de tiro no ombro, rosada, cicatrizada havia anos, de um assalto que nunca sofreu. Uma mulher em Osaka perdeu três dedos da mão esquerda num acidente de fábrica que só existia na memória. A carne simplesmente concordou. Fechou-se em cotos lisos durante a noite, como se tivesse esperado décadas por isso. Os médicos começaram a chamar de somatização mnêmica. Os jornais chamaram de outra coisa. Chamaram de a Lembrança.
No quarto 14 da Casa de Saúde Santa Mônica, Lucas Ferraz escrevia tudo.
Ele era, talvez, a única pessoa viva que sabia o que estava acontecendo, porque era a única que se lembrava de como as coisas tinham sido antes. Quando o véu se rasgou, o esquecido voltou para dentro dele. Mas não só o esquecido. Algo mais escapou pela rachadura, como um bicho que aproveita a porta aberta de um galinheiro. E esse algo, sem véu para se esconder atrás, sem guarda-roupa de memórias perdidas para vestir, tinha começado a vestir o mundo.
Lucas preenchia cadernos e mais cadernos com a verdade. O rio da Polônia nunca secou. O armistício foi assinado em 27 de julho. A mulher de Osaka tinha dez dedos. Os cadernos se empilhavam até o teto, e ninguém os lia, e Lucas sabia que estava apenas segurando, como Clara tinha segurado. Uma pessoa só não segura o mundo.
Numa madrugada de maio, a porta do quarto 14 se abriu sem que ninguém tivesse a chave.
Clara Moreau estava parada no corredor. Usava as mesmas roupas cinzentas do hospital, mas os olhos estavam diferentes. Um era o castanho cansado de sempre. O outro tinha a cor de água de poço.
— Lucas — disse ela, com a voz de quem voltou a ouvir. — Pega os cadernos que conseguir carregar. Eu sei onde ela nasceu.
E depois, com uma voz que não era a dela, mais antiga, mais funda, como se viesse do fundo de um poço:
Ela está mentindo para você.
II. O que Clara ouve
O Dr. Otávio Abreu esperava no estacionamento, ao volante de uma perua velha que zumbia como uma colmeia. Havia rádios presos com fita no painel, no teto, nos encostos dos bancos, todos sintonizados em estações diferentes. Ele não tirou as mãos do volante quando os dois entraram.
— Barulho ajuda — disse, a título de cumprimento. — Não sei por quê, mas ajuda.
No banco de trás, com um caderno de desenho no colo, estava Beatriz Nogueira. Tinha dezesseis anos agora e nenhuma lembrança dos meses que passou do outro lado do véu. Mas as mãos dela lembravam. Desenhavam sem parar a mesma coisa: uma caverna, pinturas vermelhas na pedra, um círculo de figuras sem rosto em volta de uma figura deitada.
— Faz três semanas que ela só desenha isso — explicou Abreu. — Foi a Clara que me pediu para buscá-la.
Viajaram para o norte. Clara ia no banco da frente, de olhos fechados, dando direções que nenhum mapa confirmava. Lucas a observava pelo retrovisor e anotava tudo, porque era a única forma que conhecia de não enlouquecer.
Ela tinha acordado ouvindo, sim. Mas o primeiro som que ouviu depois de oito anos de silêncio não foi o passarinho na janela. Foi uma voz. Contou isso numa parada de posto, sentada no meio-fio, com um copo de café que não bebeu.
— Quando o véu caiu, ela precisava de um lugar para ir. Eu estava com a porta aberta. Oito anos de silêncio é muito espaço vazio, Lucas. Ela entrou pelo ouvido, como uma música que gruda na cabeça.
— E agora?
— Agora a gente divide. — Clara sorriu sem alegria. — Eu ouço tudo o que ela ouve. Todas as memórias que ela está mastigando no mundo inteiro. É como ter um milhão de rádios ligados dentro do crânio.
Era por isso que sabia onde a coisa tinha nascido. A entidade lembrava, e Clara ouvia a lembrança.
Mas havia um preço, e Lucas foi vendo esse preço se instalar no corpo dela, quilômetro por quilômetro. O olho direito, que tinha clareado, já não piscava ao mesmo tempo que o esquerdo. Às vezes, no escuro do carro, a pele do rosto dela ondulava, como lençol com alguém deitado por baixo, e por um instante surgia o contorno de outro nariz, de outra boca, de alguém que ela devia ter conhecido muito tempo atrás. Quando escrevia bilhetes para Lucas, a letra mudava no meio da frase. Começava firme, a dela, e terminava redonda e infantil, a de Helena aos doze anos.
E às vezes ela mentia.
Não de propósito. A coisa falava pela boca dela com a voz dela, e Clara nem sempre percebia. Dobra à esquerda. E à esquerda havia um barranco. Você nunca me visitou no hospital, Lucas. E ele tinha visitado, num sábado, e lembrava da enfermeira-chefe, da cera de chão, dos eucaliptos sem sombra.
Foi assim que os dois criaram o método. Clara falava. Lucas checava contra a memória dele, que era completa, que não tinha lacunas. A coisa se alimentava de esquecimento; não conseguia entrar onde não havia buraco. Lucas era a única superfície lisa do mundo.
— Se eu disser alguma coisa e você souber que é mentira — Clara pediu, segurando o pulso dele com força —, você me corrige. Em voz alta. Mesmo que eu chore. Mesmo que eu implore.
Na terceira noite de estrada, ela implorou.
III. Guerra de lembranças
A cidade se chamava Pedra Branca, ou tinha se chamado. Na entrada havia três placas de boas-vindas, uma sobre a outra, com três nomes diferentes e três populações diferentes. A mais nova dizia que ali moravam onze mil pessoas. A mais antiga dizia que a cidade tinha sido inundada por uma represa em 1981.
As três estavam certas.
A rua principal era de asfalto até a metade. Da metade em diante, era de terra batida e tinha lampiões em vez de postes. Uma igreja colonial ocupava o mesmo terreno de um supermercado, e as duas construções se sobrepunham sem se tocar, como duas fotografias impressas na mesma folha. Pela porta da igreja saía uma procissão de 1940. Pela porta automática do supermercado, uma moça de uniforme empurrava carrinhos. Às vezes os dois mundos se cruzavam e uma senhora de véu preto atravessava uma gôndola de refrigerantes sem perceber.
E, no fundo de tudo, a água. Lucas a sentia nos tornozelos, invisível, fria, subindo devagar. A represa de 1981 também estava ali, lembrada por alguém.
Os moradores estavam reunidos na praça. Abreu desacelerou a perua e todos viram por quê.
Havia uma fogueira. Em volta dela, duzentas pessoas gritavam com a convicção absoluta de quem tem certeza. Gritavam que a família Prado tinha envenenado o poço em 1997 e matado sete crianças. Os que gritavam choravam pelas crianças. Lembravam os nomes, os velórios, os caixões pequenos. E a família Prado, amarrada ao coreto, chorava também, porque se lembrava do mesmo crime, e se lembrava de ser inocente, e se lembrava de ser culpada, tudo ao mesmo tempo.
Não havia poço em Pedra Branca. Lucas sabia. Nunca houvera.
Mas o pior não eram as lembranças. Era o que elas faziam com a carne. Um homem na primeira fila, de uns quarenta anos, tinha metade do rosto envelhecida: a pele caída, a barba branca, os olhos turvos de um velho de oitenta. A cidade inteira lembrava dele como o próprio pai, e o corpo dele estava cedendo à maioria. Uma mulher tinha o braço coberto de queimaduras que apareciam e sumiam conforme as pessoas à volta concordavam ou não com a história de um incêndio. Uma criança, sentada no chão, segurava a própria mão, e a mão tinha seis dedos, depois quatro, depois seis, piscando como uma lâmpada com mau contato.
— Não para o carro — disse Clara.
Mas não era a voz de Clara. Era mais grave, mais faminta, e vinha de um lugar atrás dos dentes dela.
Para o carro, Otávio. Eles precisam de um médico. Você lembra que é médico, não lembra? Você lembra da sua filha, que morreu num poço igual a esse?
Abreu tirou o pé do acelerador. As mãos dele tremiam.
— Eu nunca tive filha — sussurrou. — Eu nunca tive…
E uma marca de mordida apareceu no antebraço dele. Pequena. De criança. Como se alguém tivesse se agarrado a ele afogando.
— Você nunca teve filha — disse Lucas, alto, inclinado sobre o banco. — Você nasceu em Santos em 1961. Morou sozinho a vida inteira. Você me disse isso na porta da sua casa, com a televisão ligada. Você não tem filha, Otávio.
A marca de mordida desbotou. Abreu engatou a marcha e afundou o pé.
Clara se virou para Lucas no banco de trás. O olho cor de poço estava cheio de lágrimas.
— Lucas, por favor. Me deixa ficar com a minha avó. Ela está aqui, eu estou ouvindo ela. Ela diz que me perdoa. Por favor, me deixa lembrar que ela me perdoou.
Era o momento de que ela tinha avisado. Lucas segurou a mão dela, que estava gelada e se mexia de um jeito errado, como se houvesse ossos demais.
— A Helena morreu sem nunca te dizer nada, Clara. Ela não pediu perdão. Ela te ensinou a ficar calada. É isso que é verdade.
Clara gritou. O grito saiu com duas vozes. E então ela desabou contra a porta do carro, chorando com uma voz só, a dela, que tinha passado anos sem conseguir se ouvir chorar.
No banco ao lado, Beatriz não tinha levantado os olhos do caderno. Tinha terminado um desenho novo: uma serra com três picos, uma fenda escura na base do pico do meio, e um número escrito embaixo, com uma letra que não era a dela.
Lapa do Esquecimento. 9.000 anos.
IV. A Lapa do Esquecimento
A serra dos três picos ficava no fim de uma estrada que não constava em mapa nenhum, no sertão do norte de Minas, onde o cerrado vira pedra. Abreu ficou na perua, na boca da fenda, com todos os rádios ligados no volume máximo. Disse que alguém precisava ficar do lado de fora fazendo barulho. Disse que, se eles não voltassem, pelo menos ele ia se lembrar de que tinham entrado.
A fenda se abria para uma caverna, e a caverna para um salão tão grande que a lanterna não alcançava o teto. Fazia frio. O ar tinha cheiro de cinza muito velha.
As paredes estavam cobertas de pinturas.
Lucas já tinha visto pinturas rupestres em livro. Aquelas eram diferentes. Eram vermelhas e ocre, feitas com dedo, e contavam uma história em sequência, como uma tira de jornal de nove mil anos. Primeiro, pessoas pequenas, de braços abertos, caçando, dançando, enterrando os mortos com flores no peito. Depois, uma mancha. Não um animal, não uma pessoa. Uma mancha sem contorno, pintada com a mão espalmada, que crescia de quadro em quadro. E as pessoas, perto dela, iam perdendo partes do desenho. Primeiro a boca. Depois os olhos. Depois o rosto inteiro, até virarem apenas silhuetas vazias, iguais às que Beatriz desenhava.
— Ela já estava aqui antes de nós — disse Clara, e era a voz dela, mas a coisa escutava junto, e Lucas percebeu que a coisa estava contente. Estava em casa. — Antes da linguagem, antes do fogo. Ela não é um demônio, Lucas. Não é um deus. É mais simples. É o que acontece com tudo que a gente vive. É o esquecimento. Tem fome do que a gente lembra, e por isso a gente esquece. Todo mundo, toda noite, um pouco. Ela come um pouco de cada um de nós desde sempre. Os sonhos que somem quando a gente acorda. O rosto dos mortos ficando borrado. É ela, mastigando.
No fundo do salão, as pinturas mudavam. Mostravam um círculo de figuras sem rosto, sentadas. E, no centro do círculo, uma figura deitada, pintada de branco. Só ela tinha rosto. Os olhos estavam fechados, e saía do peito dela uma linha que subia, subia, e se enrolava em volta da mancha.
— Os antigos descobriram um jeito de fazer ela dormir — continuou Clara, passando os dedos pela pintura branca. A ponta dos dedos dela tinha começado a ficar transparente. — Alguém se oferecia. Esvaziava tudo. Dava a ela todas as próprias memórias de uma vez, numa refeição só. E ela, saciada, entrava na pessoa para dormir. E a pessoa virava a jaula. Uma jaula vazia, que não tinha nada para ela comer. Que não lembrava nem que era jaula.
— E quando a jaula morria? — perguntou Beatriz. Era a primeira vez que falava desde Pedra Branca.
— Outro se oferecia.
Ao lado do círculo pintado havia nichos na rocha, como os dos túneis de São Bento. Dezenas, centenas, subindo pelas paredes até o escuro. Em cada um, um crânio pequeno, limpo, alinhado. Os crânios dos que se esvaziaram. Nove mil anos de voluntários.
O último nicho, o mais baixo, o mais recente, estava vazio. Tinha uma placa de metal enferrujada, presa com arame, com um nome gravado à mão.
Ilídio Sarmento, 1952.
— Ele era o próximo — disse Clara. — O Mestre. Ele chegou aqui moço, encontrou os últimos guardiões, aprendeu tudo. Era para ele se oferecer. E ele teve medo. — Ela riu, e o riso saiu com uma voz de homem velho. — Ele fugiu. E inventou uma religião bonita sobre portas e silêncio para não ter que admitir que era só um covarde tentando abrir a jaula por fora, para nunca precisar entrar nela. Os Ouvintes nunca foram um culto, Lucas. Foram uma desculpa.
A mancha na parede se mexeu.
Não a pintura. A sombra atrás dela. Uma sombra que não era projetada por nada e que se descolou da pedra como pele se descolando de uma queimadura. E dentro de Clara, a coisa que dividia o corpo com ela se ergueu também, e por um momento o rosto inteiro de Clara foi uma multidão. Helena menina. Tomás. Seu Anselmo. Regina. Uma mulher de Osaka. Um homem de Pedra Branca com metade do rosto velho. Todos os que tinham sido lembrados errado.
E todos disseram, ao mesmo tempo:
A jaula está vazia há oitenta anos. Quem vai entrar?
V. O receptáculo
— Eu vou — disse Lucas.
Tinha decidido no carro, em algum ponto entre Pedra Branca e a serra, e a decisão lhe dava uma calma estranha. Fazia sentido. Ele era o maior banquete que existia. Tudo o que o mundo tinha esquecido estava dentro dele. Se a coisa quisesse uma refeição grande o bastante para dormir mil anos, ele era essa refeição.
Clara riu. Dessa vez era só ela rindo, cansada, com as duas vozes por um instante em acordo.
— Você é a única pessoa que sabe como o mundo era, Lucas. Se você se esvaziar, tudo o que está nos seus cadernos vai junto. O rio da Polônia. A mulher de Osaka. Os Prado. Quem vai corrigir o mundo quando ela dormir? Quem vai dizer em voz alta o que é verdade? — Ela segurou o rosto dele com as mãos já meio transparentes. — Eu sou o oposto de você. Eu passei a vida aprendendo a esquecer. Minha família inteira foi treinada para isso. E metade de mim já é dela. A jaula já está pela metade.
— Clara…
— Isso é verdade? O que eu acabei de dizer. É verdade ou é ela falando?
Lucas procurou dentro da própria memória, que não tinha lacunas. Procurou uma mentira para se agarrar.
— É verdade — disse.
Clara se deitou no centro do círculo pintado, sobre a rocha fria, no lugar exato da figura branca. Beatriz se ajoelhou ao lado dela e segurou a sua mão, sem que ninguém pedisse, como uma menina de vestido azul tinha feito numa capela sessenta anos antes.
— Não precisa não chorar — disse Clara, e a menina chorou.
O ritual não tinha palavras. Os antigos não precisavam delas. Mas Clara pediu uma coisa a Lucas: que ele lembrasse cada memória em voz alta antes de ela entregá-la. Para que pelo menos uma vez ela ouvisse a própria vida inteira, contada por alguém que não tinha esquecido nada.
E Lucas contou.
Contou da casa da avó, do cheiro de biscoito na lata. Clara sorriu, e a coisa comeu, e o sorriso ficou sem motivo. Contou do primeiro dia de faculdade, do primeiro paciente, da primeira vez que ela chorou escondida no banheiro do consultório depois de uma sessão. A coisa comeu, e as olheiras de Clara se apagaram como marcas de giz numa lousa molhada. Contou do Tomás, da poltrona que não afundava, da capela, do grito que ela deu para que um menino pudesse chorar. Contou dos oito anos de silêncio no quarto 14.
A cada lembrança, o corpo de Clara perdia um contorno. As linhas da mão se alisaram. A cicatriz de vacina no braço sumiu. As sardas do nariz desbotaram uma por uma. O rosto foi ficando liso, simples, branco, cada vez mais parecido com a figura pintada na rocha. Por baixo da pele, por um momento, Lucas viu a coisa se mexer, entrando, se acomodando, como um animal enorme se enrolando numa toca pequena demais. E depois ela parou de se mexer.
O silêncio no salão era diferente de todos os silêncios que Lucas conhecia. Não era o silêncio da capela, que esperava. Nem o dos túneis, que engolia. Era o silêncio de um quarto depois que a criança enfim dorme.
Restava uma lembrança. Lucas sabia qual era. A primeira que a gente aprende e a última que a gente perde.
— Seu nome é Clara — disse ele, e a voz falhou. — Clara Moreau.
Ela abriu os olhos. Os dois castanhos, de novo. Os dois iguais. Olhou para Lucas com uma curiosidade educada e serena, como quem olha para um desconhecido simpático num ponto de ônibus.
— Que nome bonito — disse ela. — É seu?
E fechou os olhos de novo, e dormiu, e dentro dela a coisa mais antiga do mundo dormiu também.
VI. O que fica
O rio da Polônia voltou a ser rio. As crianças aprenderam a nadar no verão seguinte, e no outro já não se lembravam de que um dia tiveram medo dele. A família Prado foi solta do coreto de Pedra Branca na mesma madrugada. Os vizinhos que a amarraram pediram desculpas sem saber direito do quê, e depois pararam de pedir, e depois pararam de lembrar.
Nem tudo voltou. A mulher de Osaka continuou com sete dedos. O homem da praça continuou com metade do rosto velho, e aprendeu a fazer a barba de um lado só. As cicatrizes que a Lembrança abriu na carne fecharam, mas ficaram. Toda vitória deixa alguma coisa no corpo.
E o mundo esqueceu. Era isso que Lucas não tinha previsto, e que talvez fosse o mais justo. Em poucos meses, ninguém falava mais da Lembrança. Os jornais pararam de usar a palavra. Os médicos arquivaram os casos de somatização mnêmica numa pasta que ninguém abriu de novo. O ano inteiro foi ficando borrado nas cabeças das pessoas, como um pesadelo pela manhã. Mesmo dormindo, a coisa ainda era o esquecimento, e mesmo o esquecimento tem a sua misericórdia.
Lucas voltou para o quarto 14. Desta vez por escolha.
Do lado dele, no quarto 15, mora uma mulher sem nome. Nos registros do hospital, consta como paciente não identificada, admitida em junho. Ninguém a procurou. Não existe documento, foto de família, conta bancária. Quando Lucas procurou o nome dela nos sistemas, nos arquivos de jornal, no diploma de psicologia pendurado numa parede que ele lembrava com perfeição, encontrou espaço em branco. A coisa adormecida dentro dela tinha feito uma última refeição antes de dormir: tudo o que o mundo sabia sobre Clara Moreau.
Beatriz parou de desenhar em agosto. Em outubro, quando Lucas ligou, ela não lembrava quem ele era. O Dr. Abreu lembrou um pouco mais. Escreveu uma carta em novembro falando de uma viagem estranha pelo sertão, com uma mulher de olhos diferentes, e no fim da carta perguntou, com uma letra trêmula, se Lucas sabia como ela se chamava.
Lucas sabe.
Ele visita o quarto 15 todos os dias, às quatro da tarde. Ela está sempre junto à janela, serena, com o rosto liso e branco como uma pintura antiga, olhando os eucaliptos sem sombra. Não fala muito. Não sofre. Dorme bem, a noite inteira, um sono sem sonhos. De vez em quando sorri para ele com uma gentileza vaga.
— O senhor de novo — diz. — O senhor é muito constante.
Ele se senta. E conta para ela uma história. Sempre a mesma, em três partes, sobre uma psicóloga que atendia um paciente que não existia, sobre um jornalista que encontrou uma foto onde não devia estar, sobre um mundo que lembrou errado e uma mulher que se esvaziou para que todo mundo pudesse voltar a esquecer em paz.
Ela ouve com atenção. No fim, sempre diz que gostou, e que a moça da história era muito corajosa, e pergunta como ela se chamava. E ele diz.
E ela esquece.
À noite, sozinho, Lucas escreve. Tem pressa, porque percebeu uma coisa que não contou a ninguém. A hipermnésia está passando. O esquecido que voltou para dentro dele está indo embora, devagar, como maré baixando. Na semana passada não conseguiu lembrar a data exata do armistício. Ontem esqueceu o nome da cidade da Polônia. Um dia, talvez em poucos anos, ele vai acordar e não vai lembrar do rosto dela.
Então escreve. Três cadernos, com três títulos na capa, em letra firme.
Ecos do Silêncio.
Sombras do Esquecido.
Além do Véu.
Talvez alguém leia. Talvez caiam atrás de um arquivo de metal numa redação qualquer e fiquem lá até a faxina de março. Talvez ninguém nunca abra.
Não importa. Ele sabe que tudo o que é humano acaba esquecido. As vozes, os nomes, os rostos dos mortos, as noites de Finados, as crianças que choraram e as que não choraram. É a fome mais antiga do mundo, e é também o que permite que a gente continue vivendo depois de perder alguém. Sem ela, ninguém se curaria de nada.
Mas, por enquanto, enquanto a mão aguentar, ele escreve o nome dela na primeira página de cada caderno. Uma vez. Depois outra. Depois outra.
Clara.
Clara.
Clara.
Fim da Trilogia do Esquecimento.