Casa dos Espelhos, cap. 2
O Parque Imperial estava quase vazio quando Augusto encontrou a Casa dos Espelhos.
Não que estivesse procurando por ela. Na verdade, passará boa parte da vida evitando lugares assim — parques, festas, lugares onde as pessoas pareciam acreditar que ainda havia tempo.
Aos sessenta e sete anos, Augusto tinha um hábito: caminhar sem destino. Não por prazer. Por economia. Quando se anda sem rumo, não existe a possibilidade de estar atrasado para nada — e ele já estava atrasado para a única coisa que realmente importava, há quase quarenta anos.
Em algum lugar daquela cidade, talvez ainda existisse a carta. Datilografada, com o timbre de uma empresa que provavelmente nem existia mais. Uma proposta de emprego em outro estado, recebida quando ele tinha vinte e três anos e uma mala que nunca chegou a fazer.
Ele recusou. Por medo. Por uma namorada que pediu para ficar. Por uma mãe que chorou na cozinha. Por nenhum motivo que, quatro décadas depois, ele ainda conseguisse explicar sem se sentir ridículo.
A Casa dos Espelhos apareceu no fim de uma alameda iluminada por postes antigos. Estranho — ele tinha certeza de que aquele caminho não existia quando entrou no parque. Mas, àquela altura da vida, já havia aprendido que insistir demais na lógica raramente melhorava as coisas.
Comprou um ingresso. Entrou.
Os primeiros corredores estavam vazios de surpresas. Espelhos comuns, sem deformação, sem susto — o tipo de atração que envelhece mal porque nunca foi realmente boa.
Foi no fim do corredor, sem placa, sem aviso, que encontrou um espelho diferente dos outros. Ocupava a parede inteira. Sem moldura, sem ornamentos, sem nenhum truque visível.
E, pela primeira vez naquela noite, o reflexo não o mostrou.
Mostrou um homem saindo de um ônibus. Vinte e três anos. Uma mala na mão. Um sonho nos olhos que Augusto não reconhecia mais no espelho do banheiro, mas reconheceu ali, na hora, como se fosse ontem.
Era aquele dia. A proposta. A mala.
Só que, no vidro, o homem aceitou.
Augusto observou em silêncio enquanto aquele outro Augusto mudava de cidade, abria um pequeno negócio, quebrava, recomeçava, se apaixonava, errava, acertava, envelhecia. Era uma vida inteira. Não perfeita. Mas é possível.
O reflexo mudou de novo. Outra escolha. Outro caminho. Outra vida.
Em uma, tornou-se professor. Em outra, escreveu livros. Em outra, nunca se casou. Em outra, morreu jovem, num acidente bobo, antes dos trinta. Em outra, atravessou oceanos. Em outra, permaneceu exatamente onde estava — e isso, de todas, foi a que mais doeu, porque era quase igual à vida que ele realmente viveu, só que com um detalhe diferente, pequeno, que mudava tudo.
Cada vida era diferente. Nenhuma era melhor. Nenhuma era pior. Apenas possíveis.
Augusto sentiu um aperto no peito, porque percebeu algo terrível: durante décadas, tinha imaginado que existia uma única vida correta, perdida em algum lugar atrás dele, esperando para ser reclamada. Mas o espelho mostrava outra coisa. Não havia uma vida perfeita esperando por ele. Havia milhares. E todas exigiam renúncias. Todas tinham perdas. Todas tinham alegrias. Todas tinham seus próprios arrependimentos — só que de outro tipo.
O vidro revelou uma última imagem. Numa cadeira simples, diante de uma janela, estava um velho. O mesmo rosto. Os mesmos olhos cansados. Independentemente da vida mostrada, das escolhas, dos caminhos — sempre o mesmo homem, no fim, sentado, olhando pela janela.
Augusto.
Ele entendeu, então, que não estava chorando pelas vidas que não viveu. Estava chorando pelo hábito — quarenta anos de hábito — de acreditar que teria sido feliz apenas em outro lugar, em outra escolha, em outra versão de si mesmo que nunca precisou existir para ser válida.
O espelho escureceu. Uma frase apareceu no vidro, em letras que pareciam ter sido escritas com o próprio vapor do vidro embaçado:
Você não perdeu a vida certa.
Você apenas viveu uma das possíveis.
Augusto ficou imóvel por vários minutos. Depois sorriu — pela primeira vez em muitos anos, um sorriso que não pedia desculpa por existir.
Saiu da Casa dos Espelhos, levando consigo algo que nunca esperou encontrar ali.
Não há respostas.
Só perdão.
Esse capítulo dialoga com algo que já discuti em Sentido da vida: por que saber o porquê não é suficiente. Augusto não podia mudar a situação — a vida que viveu já estava vivida. O que lhe restava, como a quase todos nós, era mudar a si mesmo em relação a ela. Se a história dele tocou em você, talvez valha a leitura.
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