Casa dos Espelhos, cap. 5
Clara não procurava o Parque Imperial. Ele apareceu no caminho. Ou talvez tivesse estado ali o tempo todo, esperando que ela estivesse pronta.
A infância dela não fora fácil. Não, horrível. Mas suficiente para ensiná-la a ser forte antes do tempo. Suficiente para que aprendesse a guardar sonhos em caixas bem fechadas. Suficiente para que a mulher adulta esquecesse que ainda havia uma menina dentro dela.
Naquela noite, encontrou um corredor diferente. Não havia escuridão. Não havia o peso dos outros espelhos. O corredor era silencioso. Suave. Quase gentil.
No final dele havia uma porta branca. Acima dela, uma placa simples:
O ESPELHO DA INFÂNCIA
Clara entrou.
A sala parecia um quarto antigo. Havia desenhos presos às paredes, livros infantis, brinquedos esquecidos. Um urso de pelúcia com um dos olhos costurados. Uma corda de pular. Um céu pintado no teto.
No centro, um pequeno espelho oval. Nada ameaçador. Nada grandioso.
Clara aproximou-se. E a menina apareceu — sentada no chão, pernas cruzadas, cabelos bagunçados, olhos curiosos. A mesma menina de oito anos que aparecia nas fotografias antigas.
Por um instante, Clara sentiu vontade de fugir, porque acreditava saber o que viria. Acusação. Decepção. Cobrança. Aquela criança certamente perguntaria pelos sonhos abandonados, pelos livros nunca escritos, pelas aventuras nunca vividas, pela coragem perdida.
Mas a menina apenas sorriu. Como se estivesse esperando.
— Você me reconhece? — perguntou Clara.
— Claro que reconheço.
— Eu não tenho tanta certeza.
A menina inclinou a cabeça.
— Eu sempre reconheci você.
A resposta atingiu Clara como uma lembrança esquecida. Durante anos ela havia sentido vergonha daquela criança — vergonha dos medos, das fantasias, da ingenuidade, da sensibilidade, da capacidade absurda de acreditar. Acreditar nas pessoas. No futuro. Nos milagres. No impossível.
A vida ensinará prudência. E prudência, às vezes, é apenas outro nome para o medo.
— Você não está decepcionada comigo?
A pergunta saiu antes que pudesse impedir.
A menina pareceu confusa.
— Por quê?
— Porque eu não me tornei tudo aquilo que sonhávamos.
A criança ficou em silêncio. Depois sorriu de novo.
— Nem eu.
Clara piscou.
— O quê?
— Eu também não sabia quem você seria. Achei que seríamos astronautas por uma semana. Veterinárias na outra. Exploradoras depois disso. Eu mudava de ideia toda hora.
As duas riram. A primeira risada sincera de Clara em muito tempo.
— Então você não está brava?
— Não.
— Nem triste?
— Também não.
— Então, o que está fazendo aqui?
A menina levantou-se. Caminhou até o vidro. Colocou a palma da mão contra a superfície.
— Esperando.
Clara sentiu um aperto no peito.
— Esperando o quê?
A criança respondeu com a simplicidade que apenas as crianças possuem.
— Você se lembra de mim.
O silêncio que se seguiu parecia maior que a sala. Maior que o parque. Maior que os anos. Porque Clara finalmente compreendeu: a menina não queria voltar. Não queria mudar o passado. Não queria cobrar promessas. Queria apenas existir. Ser ouvida. Ser lembrada.
A criança continuou:
— Eu não preciso que você volte a ser eu. Só preciso que você não me esqueça.
Clara sentiu as lágrimas chegarem. Lembrou dos desenhos que parou de fazer, das histórias que parou de inventar, das músicas que deixou de ouvir, das perguntas que deixou de fazer. Lembrou da capacidade de se encantar, de sonhar, de acreditar — coisas que julgava perdidas, mas que talvez estivessem apenas esperando. Exatamente como a menina.
Quando saiu da sala, o espelho estava vazio.
Mas Clara não.
Pela primeira vez em muitos anos, caminhava acompanhada. Porque compreenderá algo que nenhum outro espelho do Parque Imperial havia mostrado:
A criança que fomos não desaparece. Ela permanece sentada em algum lugar dentro de nós, pacientemente, esperando o dia em que finalmente voltaremos para buscá-la.
Na saída havia uma única frase gravada na moldura:
Ela nunca quis que você voltasse.
Ela apenas esperava que você a levasse junto.
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