Casa dos Espelhos — depois do último espelho
Antes de fechar essa porta, preciso sair de trás dela por um instante.
Casa dos Espelhos nasceu de um jeito que eu mesmo não esperava.
Não começou com um plano, nem com uma estrutura de oito capítulos pensada de antemão.
Começou com um pensamento rabiscado depressa, num pedaço de papel qualquer, antes de eu saber que ele cresceria em qualquer direção.
Algumas dessas histórias eu escrevi sabendo exatamente onde queriam chegar.
Outras só se enchiam de sentido depois de prontas — quando eu lia de volta e via ali, escondido entre as linhas de um personagem que eu tinha inventado, um pedaço de mim mesmo que eu nem tivesse planejado colocar.
Não vou dizer qual fragmento é meu e qual é só ficção. Em parte porque isso pertence só a mim. Em parte porque, no fim, acho que não importa — porque é provável que você também tenha encontrado um pedaço seu em algum desses espelhos, mesmo sem ter vivido exatamente o que Marina, Augusto, Helena, Ricardo, Clara, Beatriz, Theo ou Artur viveram.
Isso é o que esses oito espelhos têm em comum, no fundo: cada um deles mostra uma forma diferente da mesma pergunta. Quem eu deixei de ser para agradar alguém. Que vida eu não vivi. Como os outros me veem, e como isso não é exatamente quem eu sou. O peso do que eu não consegui controlar. A criança que ainda espera ser lembrada. As histórias que conto para mim mesmo são só para não precisar mudar. A busca continua, com ou sem sorte. E, por fim, a certeza desconfortável de que nenhum de nós cabe numa única imagem.
Escrever essa série me custou mais do que imaginei quando comecei. Não, porque foi difícil encontrar palavras — às vezes elas vinham fáceis demais, quase com pressa, como se já estivessem esperando há muito tempo para sair. Custou porque, em alguns momentos, escrever significou olhar para dentro de espelhos que eu mesmo evito há anos.
E ainda assim, valeu cada um deles.
Se você acompanhou desde o primeiro capítulo, sabe que nenhuma dessas histórias termina com uma resposta fácil. Isso não foi acidente. A vida raramente entrega respostas fáceis — entrega, quando temos sorte, perguntas melhores do que as que tínhamos antes. Se a Casa dos Espelhos te deixou com pelo menos uma pergunta nova, ela cumpriu o que se propôs a fazer.
Obrigado por ter entrado nessa casa comigo. Por ter caminhado pelos corredores ao lado de gente que você nunca vai conhecer fora dessas páginas, mas que, por alguns minutos, foi mais real do que parecia ter direito de ser.
A porta da Casa dos Espelhos continua ali, sempre que você quiser voltar.
Mas, como qualquer espelho de verdade, ela só mostra alguma coisa enquanto você estiver disposto a olhar.
— Kduborges.
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